Menos planos, mais princípios

Uma das maiores incoerências que vejo na análise dos candidatos à presidência é esse fetiche por planos de governo. Nem parece que o Brasil já sofreu o suficiente com os planos mais mirabolantes, que nos colocaram no quase caos que vivemos hoje. Os analistas, ainda assim, continuam exigindo que os candidatos tenham planos minuciosos a apresentar, como se tudo pudesse ser resolvido por meio de planilhas e números.

Isso não esconde que mesmo essa gente que reclama da centralização do governo federal e do excesso de Estado, no fundo, espera algum tipo de Salvador da pátria, que, se não resolverá os problemas por meio do milagre, o fará por meio de suas excelsas capacidades administrativas. Mostram que são, na verdade, estatistas enrustidos, entusiastas da planificação nacional, da mesma maneira que os mais ferrenhos comunistas.

De minha parte, entendo que um presidente não deve ter muitos planos de governo. Ele deve ter, sim, princípios claros. Eu, como alguém que realmente não acredita na eficiência estatal (diferente de muitos liberais que, apesar de declararem isso, ficam exigindo minúcias de planejamento dos potenciais presidentes, como se a ineficiência estatal fosse um problema de gestão e não de natureza), tenho convicção que a presidência mais eficiente é aquela que trabalhe para afastar a si mesma de qualquer administração técnica, lançando para os indivíduos e para os entes menores da federação as responsabilidades por implementar políticas públicas.

O problema é que isso parece impensável, inclusive para os analistas mais liberais que continuam acreditando que um bom candidato é aquele que apresente, em detalhes, tudo o que ele pretende impor sobre a cabeça dos cidadãos. O que eles querem, parece, é um novo Lenin, com seus planos quinquenais.

Da diversidade de pressupostos

Quando desenvolvemos qualquer tipo de ideia, é imprescindível discernir sobre quais pressupostos estão baseados nossos raciocínios. Muitas vezes, eles são apenas especulações baseadas em percepções subjetivas ou inferências pessoais não colocadas à prova por outras pessoas e outros meios. Então, tudo parece perfeitamente lógico a ainda que cansemos de refletir sobre o assunto, não conseguimos captar qualquer contradição ou erro.

E apesar de todo raciocínio exigir um princípio que o sustente, boa parte deles é apenas retroalimentação do que é pensado sobre os mesmos pressupostos e apenas funcionam se esses pressupostos forem seguidos estritamente.

Todas as filosofias modernas são assim, mas as próprias religiões também. Se as conclusões materialistas só têm sentido quando respeitado o princípio de que tudo tem fundamento na matéria, o calvinismo apenas se sustenta quando obedece-se a Sola Scriptura e de uma maneira bastante rígida. O próprio catolicismo, para ser acolhido plenamente, exige a aceitação de diversos pressupostos que lhe darão a base para suas ideias e conclusões.

É evidente, portanto, que a quase totalidade das discussões que abundam por todos os lados são absolutamente inócuas, pois não tratam de examinar os pressupostos, mas altercam sobre ideias definitivas. Os debatedores raciocinam sobre fundamentos completamente diferentes, a partir de pressupostos totalmente dissonantes, e ainda querem discutir o que se lhes apresenta, que tem apenas aparência de similaridade, mas acabam sendo coisas completamente diferentes.

Esperar, assim, que frutifique algo dessas controvérsias é o mesmo que aguardar que do cruzamento de uma égua com um jumento nasça um quarto de milha. Na verdade, apenas multiplicam-se os burros.

Conversas de malucos

A loucura de uma época pode ser observada pela dificuldade que há nela para as pessoas se comunicarem. Como em um hospício, onde cada indivíduo, apesar de compartilhar o mesmo espaço físico com outros, vive em seu próprio mundo, não tendo suas palavras valor para ninguém mais além dele mesmo, pelo simples fato de representarem apenas as imagens existentes em sua cabeça demente, em nossa sociedade, que tem se assemelhado muito a um grande manicômio, as pessoas mal têm conseguido trocar ideias, debater opiniões ou mesmo exortar-se mutuamente. Cada um tem vivido em seu próprio mundo, com suas próprias fantasias e com suas falsas convicções.

Este é o nosso mundo: um aglomerado de pessoas que não compartilham mais, entre si, os mesmos princípios, o mesmo imaginário, sequer a mesma visão da realidade. Sobraram apenas a linguagem, em sua manifestação meramente funcional e os trabalhos práticos – coisas que existem em qualquer hospital para malucos.

Chegamos a esse ponto, sim, mas não foi por acaso. Isso é resultado de um relativismo plantado há séculos e que agora começa a dar seus últimos frutos. Assim, vivemos um completo desacordo relativo às coisas superiores, sendo que muitos sequer acreditam que existam coisas superiores. Há também uma discordância absoluta nas questões essenciais da vida. O que para uns é um mal aterrador, para outros pode significar o maior exemplo de nobreza e até bondade. Cada um, de fato, vive suas próprias verdades e como louco as professa como realidades universais.

Por isso, não podemos mais acreditar nos debates. As visões de mundo são tão diversas e discrepantes que iniciar uma discussão qualquer é mergulhar em um buraco negro de ideias e palavras que ainda que possuam aparência de realidade, não sabemos bem onde vai dar.

Ainda que exista uma pequena minoria de sãos, a maior parte do mundo está dividida em três tipos de pessoas: os imbecis, os lunáticos e os corrompidos. Os primeiros simplesmente vivem dentro de suas possibilidades limitadas. Tentar travar alguma conversa minimamente complexa com eles é perda de tempo. São estúpidos e permanecerão assim. Os segundos, apesar de possuirem alguma inteligência, têm a imaginação tão apartada da realidade comum que qualquer coisa que se diga a eles é logo transmutado para sua realidade paralela. Estes são os idiotas úteis que tiveram suas cabecinhas encharcadas com o lodo ideológico e, depois disso, não conseguem enxergar nada além do mundo de mentira da utopia. Já os últimos até entendem o mundo e estariam aptos para uma boa conversa, mas seus interesses corroeram tanto sua alma que nada mais lhes interessa senão tirar vantagem de tudo que se apresentar diante deles. Estes são os ditos intelectuais militantes, capacitados, sem dúvida, mas tão consumidos pelos seus desejos de poder que não há nada que se possa falar para eles sem que tentem tirar proveito de tudo a seu favor.

Viver neste mundo, portanto, é estar, a maior parte do tempo, em isolamento. O que nos restou é o silêncio involuntariamente promovido pelos nossos interlocutores. Na sociedade atual, já não é possível nem mesmo a repreensão, pois esta pressupõe que ambos, repreensor e repreeendido, compartilham os mesmos princípios. Mesmo Cristo, se viesse hoje à Terra, não teria mais como exortar os fariseus. Os de seu tempo, no mínimo, aceitavam os mesmos pressupostos que ele. Atualmente, suas broncas seriam apenas sua mera opinião.