Da psicopatia à normalidade

Em qualquer país minimamente civilizado, o atentado sofrido por Jair Bolsonaro seria motivo de consternação em todas suas esferas. Em qualquer sociedade minimamente desenvolvida, a facada recebida pelo candidato seria a causa de reflexão profunda em toda a nação.

No entanto, vivemos no Brasil e aqui, em boa parte de seu povo, o que prevalece é o cinismo, a indiferença, o ódio e o completo desprezo à vida humana.

Parece que as dezenas de milhares de vítimas da violência brasileira estão dessensibilizando as pessoas em relação às vidas que são desperdiçadas diariamente em nossas ruas, a ponto de quando um homem sexagenário sofre uma tentativa de assassinato tão cruel isso acaba não significando muita coisa. Como na Guerra, onde as mortes já não causam mais nenhum efeito, aqui também está se perdendo a noção de como a vida humana realmente importa.

Falo isso porque o que eu vi, nesses dias pós-atentado, foi estarrecedor: jovens duvidando da veracidade do ocorrido, comediantes tripudiando do agredido, jornalistas minimizando a seriedade do fato e militantes até lamentando a imperícia do assassino. No entanto, de tudo, o que mais me incomodou foi ver a imensidão de gente comum, que sabidamente não tem nenhum vínculo político nem ideológico, tratando o atentado como algo trivial, indiferente, quase sem importância. O candidato que está a frente de todas as pesquisas de intenções de voto para presidência da República foi quase morto na rua e as pessoas tratam isso como se fosse tudo como um lance de uma partida de futebol, algo sem maiores consequências.

Quando, em meu artigo “Uma cultura psicopática”, me questionei se não estaríamos vivendo em uma sociedade psicopática, que cultiva a falta de empatia e a falta de sensibilidade, tinha em vista situações como esta que estou presenciando: de pessoas agindo, diante de um fato de extrema seriedade, como algo absolutamente trivial, senão desprezível. Logo nós, brasileiros, que nos gabávamos de ser calorosos e sensíveis, e até um tanto passionais, agora estamos nos mostrando frios, quase indiferentes ao que está ocorrendo. E não estou dizendo nem de uma consternação pessoal em relação ao agredido, mas da percepção óbvia da seriedade do fato e do momento no qual estamos vivendo.

Lembram-se daquela cena mostrando árabes comemorando o atentado do World Trade Center? Algo muito semelhante está ocorrendo aqui e agora. São hordas de jovens, principalmente, tratando todo o terror do fato ocorrido como fraude, mentira ou algo sem nenhuma importância. Quando não – e não foram poucos -, muitos deles até comemorando o atentado, dizendo que o candidato mereceu a facada.

Não se engane, porém. Tudo isso – a violência e o desprezo à vida – foi inculcado por uma ideologia esquerdista doentia, que se impregnou na mentalidade brasileira, e que nunca prezou pela valorização do ser humano. As valas, os paredões, os campos de concentração, o impulso ao banditismo, a violência e os atentados estão longe de ser acidentes na história socialista. Portanto, neste país onde essa ideologia infiltrou-se amplamente, a forma como muitas pessoas reagiram ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro não é uma anormalidade, mas a consequência óbvia de décadas de modelação do pensamento de um povo segundo uma ideologia assassina.

No entanto – bom não se enganar com isso! – a solução para essa situação não virá de um plano de governo específico ou da aplicação de uma ideologia contrária. Pelo contrário, o único movimento salvador, que pode trazer racionalidade à nossa sociedade, é aquele que promova um retorno à vida baseada nos valores universais e eternos que sempre sustentaram a existência das pessoas comuns. Na verdade, o Brasil só precisa voltar a ser um país normal, sadio. Não há nada mais que devemos aspirar.

Pode até ser que as grandes ideias e os grandes líderes sejam os responsáveis por movimentar a história da sociedade, mas são as tradições e os valores comuns e naturais que sempre a sustentaram. Portanto, se quisermos resgatar as pessoas a sua normalidade devemos torcer para que a ideologia morra, de uma vez por todas.

Mais que dois minutos de ódio

Não há melhor aglutinador de um grupo político do que eleger um inimigo comum, sobre o qual possam lançar todas as culpas. O nazismo fez isso com os judeus, o comunismo com os capitalistas e os maoístas escolheram a velha geração como os responsáveis por todas as mazelas do povo.

Aqui, no Brasil, está acontecendo a mesma coisa. Agora, quando tudo se voltou contra Dilma Rousseff e seu partido, o PT, eles não tiveram nenhum problema em escolher o seu demônio, sobre as costas de quem lançam todas os problemas do país.

Eduardo Cunha é o Emmanuel Goldstein, personagem do livro 1984, de George Orwell, escolhido pelo Partido dos Trabalhadores, sobre quem todos os males da nação são lançados. Como no livro, o partido convoca os militantes para expressarem diariamente o seu ódio contra o deputado, com a diferença que exacerbam os dois minutos do 1984.

Tal escolha vem bem a calhar para satisfazer a necessidade de um grupo de psicopatas que, como tais, jamais assumem seus erros. Podem até dizer, meio en passant, que houve falhas, mas são incapazes de listá-las, pois, como doentes que são, não conseguem perceber seus próprios erros.

Veja o caso de Dilma Rousseff, que, antes de ser afastada, deixou o país quebrado, com índices econômicos desastrosos, além de ter seu partido envolvido nos casos de corrupção mais escabrosos da história da república. Ainda assim, ao ser questionada sobre seu governo, ela simplesmente se esquiva de qualquer responsabilidade, deixando para os fatores externos os motivos do desastre e impondo sobre seu Goldstein a razão por não conseguir reverter o mal.

Essa transferência de responsabilidade e a incapacidade de assumir os próprios erros são características clássicas da psicopatia. Quando vemos, portanto, a presidente afastada falando como se tudo o que ocorrera de mal em seu governo não tivesse nada a ver com ela, não podemos deixar de observar que trata-se claramente de uma mulher que sofre de uma séria patologia. Mais ainda, quando observamos a militância agindo como ela, usando dos mesmos argumentos e apresentando as mesmas incapacidades cognitivas e perceptivas, descobrimos que a psicopatia é algo que não está adstrito ao âmbito do indivíduo, mas pode se espalhar por grupos inteiros.

É verdade que o que vem por aí, com o governo que se formou, não parece ser grande coisa. Não há nenhum motivo para esperar dele grandes e virtuosas ações. No entanto, uma coisa é certa: nos livramos de um bando de loucos, incapaz de perceber o mal que promove e que, permanecendo mais tempo no poder, nos levaria para o caos, da mesma forma como fizeram seus comparsas latino-americanos.