Tradição e instinto

É comum ver gente inteligente criticando a forma como assimilamos as tradições, tentando dar a entender que, ao fazermos isso, estamos agindo sem pensar, apenas repetindo padrões já determinados. Há até um vídeo, bastante conhecido, que mostra uns macaquinhos agindo dessa maneira. Acreditam assim que estão levando seus ouvintes a defender a razão.

Não entendem, porém, que a razão humana não é algo que existe sem uma causa e que ela é também parte de um desenvolvimento e, nesse prisma, só existe como fruto das tradições e dos costumes. Sem eles, com efeito, seríamos apenas instinto e, consequentemente, não haveria razão alguma para defender.

Por isso, quando alguém, ao criticar o conhecimento herdado, pensa estar reivindicando liberdade, na verdade está promovendo o exato oposto dela: o cárcere da irracionalidade.

Confiança na inteligência

Há algo nos pensadores modernos de até o meio do século XX que, apesar de um tanto equivocado, era melhor do que o relativismo atual: a confiança na inteligência. Realmente, eles pensavam que a razão ia dar conta de tudo. Não ia, mas, pelo menos, servia de direção. Hoje, é só cinismo.

Inteligência e confusão

Mais do que burras, as pessoas são confusas. Muito daquilo que chamamos de burrice nada mais é do que a dificuldade de colocar em ordem os pensamentos, de maneira que eles se tornem claros o suficiente para permitir entender a realidade.
 
Mesmo pessoas de nível cultural inferior, dentro daquilo que seu conhecimento lhes permite saber, poderiam pensar com muito mais claridade se aprendessem a organizar aquilo que está na cabeça delas.
 
É por isso que vemos tantos considerados intelectuais falando asneiras e tomando posições estúpidas. Por mais que tenham muitas informações em suas cacholas, estas são apenas um emaranhado de dados, sem conexão, sem ordem, sem sentido.

A revelação não despreza a razão

Pierre Lecomte du Noüy inicia seu livro, O Homem e seu Destino, afirmando que há, para o homem, dois caminhos: o da razão e o da revelação, sendo que este seria como um caminho direto, para poucos, e, apesar de considerá-lo superior, seria algo independente da razão. O autor, com isso, acaba por tratar a revelação como uma via esotérica e, certamente, gnóstica.

Muitos cristãos, por seu lado, costumam cometer esse mesmo tipo de equívoco. Não é difícil testemunhar o tratamento que dão à revelação como algo que sobrepuja a razão. Para eles, a revelação é como uma abertura imediata ao conhecimento das realidades superiores, fazendo com que o homem, como que por um salto, saísse da ignorância para o conhecimento da verdade.

O que não percebem, é que esta é uma visão essencialmente gnóstica. O gnosticismo privilegia o acesso direto às verdades superiores, seja por meio de fórmulas, ritos ou experiências místicas. O cristianismo, porém, jamais ensinou isso.

A revelação cristã se baseia no conhecimento humano para, a partir dele, conduzir o homem a verdades superiores. Por isso Cristo usava parábolas e Deus ofereceu visões. De qualquer forma, umas e outras ensinavam sobre realidades superiores, mas usando dos elementos conhecidos.

Na verdade, a revelação cristã é progressiva, pois ensina conforme o estágio humano de conhecimento. É por isso que as Escrituras dizem que Cristo se revelou na plenitude dos tempos. Naquele momento, o conhecimento acumulado dos homens permitia a compreensão da identidade do Messias.

Não há, portanto, no cristianismo, o desprezo da razão. Pelo contrário, ele se apresenta na presunção de sua existência, estimulando-a e conduzindo-a, de forma que a verdade seja progressivamente compreendida.

Os saltos às verdades superiores não existem. O homem apenas pode conhecer a verdade pelo acúmulo das informações e a correta interpretação delas. O que a revelação faz é apenas apresentar novas informações que seriam impossíveis de serem conhecidas sem ela, mas que, mesmo assim, só podem ser compreendidas se houver um prévio entendimento de seus significados.

Publicado originalmente no Núcleo de Estudos Cristãos