Utopia liberal

A utopia não se manifesta apenas naquelas ideologias que imaginam um mundo futuro perfeito, mas inalcançável. Ela também é bem evidente no pensamento daqueles grupos que acreditam que as soluções de qualquer situação social ou política, mesmo para hoje, vêm da adoção, pura e simples, de uma ideia.

E não é isto que boa parte dos liberais fazem quando se trata das privatizações e da liberação do mercado?

Não que eles estejam errados quanto ao viés de liberalização e desestatização da economia. Pelo contrário, me parece que esse é mesmo o caminho a ser perseguido. Porém, quando eles acreditam, como muitos parecem acreditar, que a mera liberalização de tudo é suficiente para fazer as coisas funcionarem, me soa tratar-se da boa e velha utopia.

Basta observar com que arrogância e desprezo tratam qualquer um que meramente insinue que deve haver algum direcionamento legal na economia ou algum cuidado na privatização de empresas estatais para perceber o quanto esses liberais têm suas ideias como realmente a solução infalível para todos os males (o que vai de encontro com um sério princípio conservador e não difere em nada de qualquer proposta ideológica).

Esses liberais condenariam até Hayek, que escreveu que “essa ênfase na natureza espontânea da ordem ampliada ou macro-ordem pode ser enganosa se passar a impressão que, nela, a organização deliberada nunca é importante”. Leia-se ordem ampliada como a sociedade de mercado e organização deliberada como leis que direcionem esse mercado.

Acredito que os liberais estão certíssimos ao lutarem por menos Estado e menos regulamentos. Porém, também acredito que pecam quando fazem isso crendo que a solução que propõem é óbvia e natural, dando seus resultados como se estivéssemos lidando com um problema matemático e não com a complexidade típica das relações sociais e humanas.

A ideologia de Haddad e o urbanismo inumano

Mendigo com frioO que caracteriza a literatura utopista iniciada no século XVI é a possibilidade da criação de uma sociedade completamente planejada, de maneira que as pessoas que nela morassem fossem beneficiadas. A proposta era de criar um sistema social que não apenas ajudasse os homens a viver melhor, como os moldasse, para que se tornassem bons cidadãos.

Tudo parecia muito bonito e, provavelmente, seus idealizadores acreditassem que suas ideias representavam o que há de mais humano. No entanto, todas as utopias cometiam o mesmo erro: apesar de serem pensadas para os homens, os desprezavam como indivíduos. Continue lendo

A maldição do bem comum

Todas as guerras, morticínios, genocídios e assassinatos estatais foram decididos e aceitos por todos com base no bem comum

O bem se encontra no indivíduo. Nele reside a verdade. Não há nada de real no que é comum, senão a convenção. E esta, invariavelmente, se apresenta como a junção de desejos egoístas e interesses pessoais. Se a verdade apenas pode ser encontrada após um sincero e penoso esforço, não seria uma ilusão esperar que a multidão a possuísse? Por que, então, ainda esperar que algo de bom surgisse do coletivo?

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