Um furto que sofri e minha visão dos fatos

Segue, aqui, uma explicação das razões por que deixei de escrever no blog nos últimos dias. Um furto, as complicações posteriores e um pouco de cansaço são as causas principais. De qualquer forma, compartilho os fatos para vocês entenderem o que aconteceu.

Este blog estava vindo em um bom ritmo, com textos praticamente diários. No entanto, nesta semana, por conta de questões pessoais que compartilharei aqui, acabei ficando impossibilitado de escrever. Não apenas por causa da falta de tempo diante dos transtornos ocorridos, mas por falta de concentração mesmo, pois a burocracia que precisamos enfrentar quando temos documentos roubados é algo muito cansativo e dispersante.

Vamos aos fatos: na segunda-feira, 11 de agosto, dia do meu aniversário, por sinal, sendo também folga em meu escritório, por ser dia do advogado, passei pela manhã acompanhando minha esposa em alguns trabalhos que ela precisou cumprir. Almoçamos juntos e à tarde resolvemos ir fazer umas pequenas compras. No final de tarde, por volta das 17h, precisávamos visitar uma cliente e, para isso, estacionamos nosso carro em uma rua paralela à loja dela.

É bom salientar que o dia estava claro; era um dia de sol. Deixamos o carro em frente à casa de uma psicóloga conhecida nossa e nos direcionamos ao estabelecimento comercial a ser visitado. Permanecemos ali por volta de 30 minutos, sem notar nenhum tipo de anormalidade.

Voltamos para o nosso carro e no caminho já fazíamos os planos das comemorações à noite, quando, ao cruzarmos à esquina onde ele estava estacionado, logo percebemos que não estava lá. Não havia como nos enganarmos quanto ao local, pois conhecíamos bem a casa diante da qual o deixamos.

Nossa reação, imagine, foi de perplexidade. Não é incomum donos de carros sonharem que não os encontram em seus locais de estacionamento (eu mesmo sonhei algumas poucas vezes com isso), mas a sensação real é bem estranha. Meu sentimento, na verdade, foi um misto de duas sensações: a frustração de ter um bem valioso levado e a necessidade de manter-se firme e calmo, para saber o que fazer diante dessa situação.

Nesse caso, é preciso ressaltar que meu veículo estava temporariamente sem cobertura de seguro. Por ter ocorrido alguns problemas com a seguradora, na transferência do meu antigo carro para o atual, estava ainda em negociações com a nova seguradora. Portanto, simplesmente, se roubassem meu carro, deveria arcar com o prejuízo.

Liguei para a Polícia Militar e passei todas as informações em relação ao ocorrido. Sem esperança de ter meu carro de volta, passei a tentar acalmar minha esposa e a tomar as devidas providências nesses casos. Preciso lembrar que, há praticamente um ano, a Leticia ficou refém de um bandido por volta de 3 horas. Então, imagine o trauma que isso causou e como essa nova situação poderia trazer à sua lembrança tudo aquilo que ela sofreu.

Logo chegaram nossos amigos mais próximos e familiares para nos ajudarem. Isso porque além de estarmos sem carro, perdemos meu computador, que estava dentro da mochila que se encontrava no porta-malas do veículo, além de todos os cartões de minha esposa também se encontrarem no carro furtado. Além disso, meu celular havia perdido toda a carga e o de minha mulher estava quase desligando.

Precisávamos, então, resolver o que precisava ser resolvido. Dentro do carro estavam nossas chaves de casa, portanto, era preciso encontrar um chaveiro para abrir as portas de nosso apartamento, onde se encontravam nossos cachorros. Por outro lado, eu precisava fazer o Boletim de Ocorrência, comunicando não apenas o furto do veículo, mas dos documentos e bens levados juntamente com o carro.

Enquanto minha esposa tentava solucionar o problema da casa, peguei o carro da minha sogra e me dirigi para a Delegacia indicada. Ao tentar lavrar o B.O., fui informado pelo escrivão que, pela localização do furto, a Delegacia competente para a feitura do Boletim da Ocorrência se encontrava do outro lado da cidade.

Meio inconformado com mais esse contratempo, dirigi-me para lá. Porém, quando, no caminho, passávamos perto do local do incidente, algo dentro de mim conduziu-me a sair da rota e tomar a rua onde havia ocorrido o furto. Virei-me para meu primo que me acompanhava e disse: “Vamos passar pela rua onde estava o carro!”.

Sem bem entender porque resolvi fazer isso, passamos pelo local e, como esperado, o carro não estava lá. No entanto, por causa dessa alteração de rota, fui obrigado a seguir por duas ruas um tanto escuras e estreitas (já era de noite).

Quando virei na segunda rua, meu primo (que trabalha na CET de Santos e tem o costume de olhar placas de veículos) começou a gritar: “Olha seu carro ali, olha seu carro ali!”. Meio sem acreditar e falando com meu pai ao celular, comecei a gritar também, deixando-o, inclusive, um pouco assustado com isso.

Praticamente larguei o carro de minha sogra no meio da rua e me dirigi ao meu carro, que estava perfeitamente estacionado em um ponto bem escuro da rua e, pasmem, devidamente trancado.

Destranquei o veículo e constatei o óbvio: levaram tudo o que estava dentro dele. No entanto, a alegria de ter recuperado o carro quase tornou irrelevante as perdas dos bens que estavam em seu interior.

Pensando no modus operandi dos bandidos, é certo que eles não queriam apenas furtar os objetos encontrados no interior do veículo. Isso fica claro quando observei que, para adentrar e levar o carro para outro local, eles não fizeram nenhum arrombamento, nem mesmo ligação direta. Foi um serviço de criminoso profissional. Usaram instrumentos que permitiram que tanto a entrada no veículo como sua condução fossem feitos sem nenhum tipo de dano.

O que me parece é que a intenção deles era buscar o carro mais tarde, provavelmente durante a madrugada. Se eles quisessem apenas furtar os bens do interior do veículo, nada explica eles deixarem o carro tão cuidadosamente estacionado em um ponto escuro da rua e, mais ainda, devidamente trancado.

Isso tudo torna o fato de eu ter encontrado meu carro um milagre. Vários fatores me levaram até ele: ter me dirigido à Delegacia errada, o que fez que eu tivesse que seguir outro caminho; a necessidade que senti, no meio do caminho, de mudar a rota, a fim de passar pelo local do acontecido; seguir, por isso, um caminho diferente, o que me levou até a rua onde o carro estava; estar com meu primo, acostumado a identificar placas rapidamente, junto comigo, o que fez ele ver o carro estacionado, ainda que em um ponto de difícil verificação.

O que eu vi, na verdade, foi a graça divina cuidando deste pobre pecador aqui. Não que este fosse um caso de vida ou morte, mas sempre é desanimador você ver o fruto de seu trabalho levado, sem mais nem menos, por bandidos. Fora que o que foi levado não foi nenhum bem de ostentação, mas materiais de trabalho e documentos.

Nesses casos, não há como evitar a revolta. Não sou rico, tenho um carro popular, trabalho pelo pão de cada dia e, de repente, um vagabundo qualquer se vê no direito de retirar de mim o que me serve apenas para o meu sustento.

E que não me venham com esse papo de vítimas sociais que escolhem o caminho da criminalidade por falta de opção. O que os ladrões fizeram no meu carro é obra de conhecimento técnico avançado. Se eles quisessem, poderiam trabalhar em diversos lugares aplicando suas técnicas mecânicas e elétricas. Mas não, preferem o furto, quando não o roubo, pois é um caminho mais fácil e, certamente, mais lucrativo.

O pior é que não pude deixar de lembrar do artigo do senhor Sakamoto, articulista da Folha de São Paulo, onde ele lança a culpa desses assaltos na própria vítima, por conta da ostentação. Fico pensando: é, realmente devo ser culpado por ficar ostentando o meu carro popular por aí!

O pior é ouvir de pessoas próximas argumentos semelhantes, como: “Por que você não colocou o carro em um estacionamento?”, “Por que você anda com seu computador por aí?”, “Por que você não coloca um seguro no carro?” entre outros.

Nos acostumamos, em nosso país, com uma vida inferior, onde não temos paz sequer para fazer as coisas mais triviais. Não posso sequer ter um Ipad, andar com ele na rua, ainda que a vantagem de possuir um aparelho desses é mesmo sua portabilidade, para ser usado em trânsito e não dentro de casa. Mas carregar um aparelho desses em público é quase uma afronta. Não posso também deixar meu carro em qualquer lugar, pois, mesmo sendo um veículo simples, os bandidos o desejam.

Vivemos uma sub-vida. Não temos paz. E não adianta me falarem que devo agradecer por não acontecer nada com a gente e que bens materiais a gente recupera. Mas eu não consigo me conformar que, em pleno ano de 2014, eu devo resignar-me com mera sobrevivência e não achar uma afronta eu poder fazer coisas simples, sem me preocupar se vou tomar um tiro na testa na próxima esquina.

O ser humano tem uma capacidade de adaptação quase infinita e nós, brasileiros, nos acostumamos a viver com medo. Temos medo de ser assaltados, agredidos, medo de perder o emprego, de não conseguir pagar as contas, da polícia, do ladrão, do vizinho… Se pensarmos bem, nosso estilo de vida é impensável para cidadãos de países mais desenvolvidos, Na verdade, já achamos normal ter que fazer seguro em aparelhos celulares!

O pior é saber que a grande maioria dos assaltos em minha cidade existem para alimentar a máquina criminosa de uma facção de bandidos, que, sabe-se, tem estreitas ligações com o PT e diante do qual o Governo Estadual se vê quase impotente em sua tentativa de combatê-lo.

Tem gente que acha tudo isso muito romântico, mas, de fato, como escrevi uma vez, a criminalidade atual não é romântica. Há esquerdistas que correm para defender bandidos, que os tem como vítimas sociais que precisam mais de proteção do que de punição. Do meu lado, ainda mais após essas experiências bastante desagradáveis com a bandidagem, estou ainda mais certo que o lugar desses covardes é na cadeia.

Pelo menos, mesmo diante de tudo isso, ainda posso agradecer a Deus por seu cuidado.

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