Uma conversa chata

Eu tenho uma certa dificuldade de conversar com algumas pessoas. A razão disso vai parecer arrogante, mas eu vou explicar os motivos.

É que a maioria delas parecem-me um tanto enfadonhas (apesar de ter plena consciência de eu também ser enfadonho para elas). A diferença entre nós, porém, reside no fato de eu entender as razões desse mútuo desentusiasmo.

A verdade é que a maioria das pessoas não têm ideias nas suas cabeças. É isso mesmo! (Eu avisei que pareceria arrogante!) Elas podem carregar sentimentos e travesti-los com palavras, podem ter rápidas percepções e transformá-las em frases, mas ideias mesmo elas têm muito poucas.

O que as pessoas costumam acumular dentro de suas cabeças são os fatos. A memória delas é tomada por situações que se sobrepõem, por eventos que se seguem. Seus cérebros estão tomados pelo visível e pelo concreto. Por isso, seu universo mental é formado quase que exclusivamente pelo dia-a-dia, pelos filmes e séries que assistiram, pelas fofocas familiares, pelas ocorrências da política cotidiana, pelas tragédias mostradas no noticiário.

E é isso que vai acabar sendo o assunto de suas conversas.

A coisa fica ainda mais limitante quando os únicos fatos aos quais a pessoa tem acesso são aqueles que fazem parte de sua experiência pessoal direta. Converse com alguém assim e você terá de ter paciência para escutar os mínimos detalhes das coisas mais irrelevantes que esta parca experiência humana pode proporcionar.

A questão toda, do meu lado, é que os fatos brutos realmente não me interessam. Tanto que, quem me conhece sabe que até da minha própria vida falo muito pouco. Menos por alguma necessidade de privacidade do que pelo meu desinteresse em relação aos eventos que dela fazem parte.

Não que eu jamais fale sobre fatos. Mas faço isso quando eles servem de pretexto para a exposição de alguma ideia. Porque são estas que me interessam de verdade; são estas que realmente movem a vida; são estas que realmente importam.

Eu sou assim! E ninguém pode dizer que não me esforço por parecer atento quando alguém começa a falar sobre fatos. O problema é que eles me enfadonham seriamente. E isto é mais forte do que eu.

Por isso, se alguma vez, em uma conversa, pareci indiferente, peço desculpas. A culpa não é da pessoa! É dos fatos que ela narrou e que não despertaram em mim nenhum interesse.

1 resposta a “Uma conversa chata”

  1. Totalmente de acordo, e é exatamente sobre as ideias que os diálogos deveriam ser entremeados, caso houvesse conhecimento e aptidão para o exercício da verdade, desde que soubéssemos sustentá-la com sólidos argumentos, dos quais, infeliz,ente, a maioria carece.
    Convicções são o suporte e a resiliência ante a solidão e a repulsa pelas ideias.

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