Vida de crítico

A posição do crítico é a mais confortável que existe. Ele aponta o que considera errado, mas faz isso apenas em abstrato, pois não é ele quem está fazendo algo. Quem fez tem de lidar com as nuances e complexidades da realidade, mas quem critica pode pairar no mundo das hipóteses, sem riscos, sem responsabilidades.

O pior é que eu conheço diversas pessoas que montaram suas vidas totalmente baseadas na crítica. Toda sua carreira existe apenas para falar mal do que outros estão fazendo, sem eles mesmos terem de fazer nada, nem mesmo apresentar qualquer solução que possa ser criticável. Por isso, não precisam se comprometer com coisa alguma.

Mais sério ainda é o fato de que são essas mesmas pessoas que acabam vistas como as mais sábias, as mais competentes. Sabe por que? Porque elas parecem infalíveis. Como suas vidas resumem-se em apontar os erros alheios, elas mesmas acabam aparentemente livres de qualquer erro.

Por consequência, é esse tipo de gente que se torna influente e longevo.

Esse foi o segredo, por exemplo, da influência e longevidade da Escola de Frankfurt. Apesar de todo seu trabalho ter sido baseado em fazer críticas sociais, ainda que travestidas de pesquisas e estudos, seus membros sempre tomaram o cuidado de não se comprometer demais com a política prática. Assim, puderam manter uma certa distância da inconstância da realidade material, podendo abrigar-se na segurança das discussões teóricas e abstratas. Tornaram-se, assim, umas das instituições mais influentes do mundo, tendo entre seus integrantes os pensadores mais lidos da contemporaneidade.

Da mesma maneira, muitos sabichões do nosso tempo se mantêm. Não têm nada para oferecer, pouco para acrescentar, mas apresentam-se como os especialistas naquilo que criticam, mesmo sem nunca terem construído nada na respectiva área.

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