O esoterismo e os princípios reformados

O esoterismo tem nos princípios originais da Reforma Protestante o seu maior empecilho. Isso porque o movimento que dissociou-se da Igreja Católica Romana proclamou algumas ideias que, por serem rígidas em relação a alguns entendimentos, principalmente sobre a revelação e o papel do crente, acabaram por fechar as portas para qualquer tipo de pretensão esotérica no meio do cristianismo.

Para que fique bem claro, esoterismo a que me refiro significa a convicção de que existem verdades ocultas no cristianismo, não disponíveis às pessoas comuns. O esoterismo não nega a verdade exotérica, ou seja, aquela conhecida por todos, mas afirma que tais verdades são apenas o aspecto mais exterior de verdades mais profundas, as quais são conhecidas apenas dos grandes mestres, que as comunicam a seus iniciados, em contato direto com eles.

O princípio reformado da Sola Scriptura e, principalmente, o método hermenêutico que acaba por lhe acompanhar, impedem qualquer possibilidade de aceitação de algum conhecimento escondido na revelação. A literalidade da interpretação protestante não pode aceitar sentidos escondidos e os próprios símbolos apenas são acatados quando a própria Bíblia os explica. Sendo assim, qualquer tipo de conhecimento oculto está fora de questão, havendo apenas as Escrituras como fonte segura de verdades. Tal entendimento impede qualquer forma de ocultismo, qualquer forma de transmissão de conhecimentos que não seja única e exclusivamente pela exegese bíblica.

Há também o princípio da livre análise das Escrituras, que pressupõe que todo crente está potencialmente capacitado a compreender as verdades reveladas documentadas, apenas com o auxílio do Espírito Santo. Isso vai de encontro à figura do iniciado esotérico, como aquele que recebe de um mestre o conhecimento que fora transmitido oralmente de geração em geração. No cristianismo protestante, pelo menos em seu pensamento de origem, não há espaço para verdades escondidas, conhecidas apenas por uma elite, que as retém e transmitem a uns poucos escolhidos. Na visão protestante original tudo é aberto, escancarado, e acessível a qualquer um. Até porque era ponto pacífico entre os reformadores que a pregação deve ser capaz de atingir a todos, até os mais simples e, por isso, apenas poderia conter aquilo que fosse assimilável por qualquer pessoa.

Este mesmo princípio acabava por pressupor que toda a verdade que pode ser conhecida e necessária para o homem está disposta nas Escrituras Sagradas. Toda tentativa de apresentar alguma revelação oculta, alguma mensagem que não está contida na Bíblia é rechaçada de plano e tida por heresia pelos primeiros protestantes. É verdade que algumas seitas distanciaram-se desse princípio e acabaram aceitando doutrinas vindas de homens ou mulheres que diziam-se profetas e carregavam mensagens especiais sobre os assuntos da fé. Porém, estes, de fato, afastaram-se da rigidez inicial, que afirmava que apenas o que estava escrito na Bíblia poderia ser considerado revelação verdadeira.

Além de tudo isso, existe também o princípio do sacerdócio universal, que entende que todo cristão é um ministro de Deus, representante de sua mensagem neste mundo. Isto torna o protestantismo inicial seriamente anti-elitista, não havendo muito espaço para iniciados e grão-mestres. Na ótica protestante há apenas uma divisão simples: crentes e não-crentes. Falar em esoterismo, neste contexto, torna-se impossível.

Em virtude do que eu apontei acima é que ocultistas, como Annie Besant, discípula de Helena Blavatsky e pródiga escritora de livros esotéricos, afirmou que “o espírito da Reforma sempre foi intensamente antimístico; e por onde quer que sua respiração tenha passado, as belas flores do misticismo murcharam como sob o vento quente“. Até porque, segundo ela, “na época da Reforma, as igrejas dissidentes não foram conduzidas por ocultistas, mas por homens comuns do mundo, alguns bons e outros ruins, mas todos profundamente ignorantes dos fatos dos mundos invisíveis, conscientes apenas da casa exterior do cristianismo, seu dogmas literais e seu culto exotérico“.

Seja como for, as rígidas ideias originais da Reforma Protestante rechaçaram 0 esoterismo e quem as segue tem pouquíssima margem de possibilidades de desenvolver algum tipo de teologia oculta ou mesmo um aprofundamento mais ousado na compreensão dos símbolos. Isto não é uma questão de valor, mas mera análise dos fatos.

A Reforma Protestante foi um movimento revolucionário?

Eu vejo a Reforma Protestante como o resultado da crise da Igreja Católica, simplesmente
Alguns amigos protestantes, principalmente aqueles que conhecem melhor a história da Igreja e também têm consciência dos males que a ideia revolucionária causou e ainda causa por todo o mundo, demonstram alguma preocupação com a hipótese de a Reforma poder ser incluída também como um movimento revolucionário.

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