Do trivial ao escândalo

Era o horário de meu almoço e eu estava no restaurante, na fila para pegar minha comida, quando, no televisor acima de minha cabeça, passava o jornal de notícias da Rede Globo, bem no momento em que eles mostravam o General Hamilton Mourão, candidato à vice-presidência de Jair Bolsonaro, citando um lugar-comum conhecido da mentalidade brasileira: de que somos herdeiros dos defeitos ibéricos, indígenas e africanos, ao mesmo tempo.

Neste momento, uma senhora, que devia estar na faixa dos sessenta anos de idade, sentada a uma das mesas, já comendo sua refeição, olhou-me, com um olhar aterrorizado, como buscando em mim um cúmplice de sua revolta. Eu, obviamente, quando percebi seu intento, desviei meu olhar, para que a conversa – que sei bem onde iria parar – nem começasse. Ainda assim, pude ouvi-la dizendo, com uma voz indignada, a palavra “absurdo”.

Interessante tal reação – a qual, de maneira semelhante, pôde ser percebida em diversos setores da sociedade – pois, ainda que não se concorde com o que o general disse, seu discurso não se encaixa exatamente naqueles que podem ser considerados, imediatamente, como absurdos. Ainda que seja uma tese bem contestável, não é tão estranha a ideia de que os problemas de nosso povo se devem, em grande parte, ao tríade legado deixado pelas culturas que lhe serviram de formação.

O que mais me surpreendeu, ainda, foi ver que mesmo intelectuais de direita têm se manifestado pela absurdidade da declaração, transformando algo que é, no máximo, contestável, em imediatamente condenável. No melhor estilo dos tempos atuais, escandalizam-se com o que nem é para tanto.

Tal reação, com efeito, evidencia dois problemas: primeiro, mostra o quanto a mídia é capaz de forjar o imaginário da população. Como neste caso, transformando uma declaração – que, até algum tempo atrás, era considerada trivial – em algo quase criminoso. O segundo problema acontece na própria ciência (principalmente, nas ciências humanas, mas contaminando também outras áreas): que é a proibição expressa de discutir-se determinados temas, apenas por serem considerados inconvenientes ou sensíveis a certos grupos. Assim, cada vez mais assuntos vão sendo jogados para debaixo do tapete, cristalizando suas conclusões, não com base naquilo que a própria ciência alcançou, mas apenas pelos ditames do politicamente correto.

Sinceramente, eu não saberia dizer, com certeza, se as declarações do general estão completamente equivocadas. Tenho a convicção de que nossa sociedade possui qualidades e defeitos desenvolvidos dentro de nossa própria trajetória peculiar, mas que também alguns deles são fruto de nossas heranças culturais. É bem provável que a afirmação do senhor Mourão seja uma síntese simplista de toda a questão. Porém, tratar isso como algo indubitavelmente indecoroso é uma resposta exagerada, senão histérica.

Onde o céu e a terra se encontram

Não nego! Há momentos que o desejo que bate no peito é o de mandar às favas a civilização e fazer como George Orwell e ir morar em uma casinha em um litoral inabitado qualquer, sem mais contato com o mundo, sem mais preocupações temporais relevantes. Invade-me uma vontade de apenas sentar com os livros em volta, com a Bíblia ao lado e alçar meus pensamentos apenas para a eternidade, para as coisas superiores.

O mundo cá embaixo anda demasiado esquisito. Os alicerces sobre os quais nos apoiamos parecem ser apenas fantasia de retrógrados delirantes – pelo menos é assim que esforçam-se para que pareça. Travar qualquer tipo de diálogo mais profundo está se tornando cada vez mais difícil, e mesmo os embates estão perdendo a graça, pois até para isso é necessário que haja algum acordo entre as partes.

O problema é que nem mesmo a realidade parece a mesma. O mundo que boa parte das pessoas vive é um sistema paralelo de crenças e convicções que nem mesmo tangencia a vida como eu mesmo a enxergo. É verdade que ainda há pessoas que parecem comungar algo comigo, porém estão tão longe e são tão poucas que desanima tentar uma aproximação.

Estes, talvez, sejam os sentimentos de uma parte de brasileiros que, por circunstâncias e por esforço, entenderam algo do estado de coisas que estamos vivendo. O passaporte está virando um objeto de desejo, e só não deixam estas terras por causa dos vínculos, das responsabilidades e dos afetos que, eventualmente, ainda os prendem por aqui.

Diante do desejo de escape, o grande desafio para o brasileiro inteligente, que crê e se preocupa com as coisas mais elevadas do espírito, é encontrar o ponto de equilíbrio entre uma vida submersa no lodo das preocupações comezinhas cotidianas e a contemplação e reflexão sobre a perenidade da eternidade. O problema é que se a realidade diária da vida material pode ser sufocante e alienante, abandoná-la completamente, ao invés de lançar o homem para a eternidade divina, talvez apenas antecipe sua solidão infernal. Isso porque se há uma promessa de eternidade paradisíaca, esta apenas é concedida para aquele que, de alguma maneira, cumpre seu papel neste mundo intermediário que vivemos. Sem entrar em detalhes teológicos, a promessa do céu apenas alcança homens nascidos – e vividos neste mundo e não podemos negar que há uma responsabilidade para cada homem. Fugir desta, ao invés de salvação, pode se tornar sua verdadeira condenação.

O exercício desafiador de todo brasileiro inteligente é, portanto, identificar os assuntos temporais que possuem alguma relevância. Na verdade, esse é o desafio do homem espiritual mesmo: ao invés de, gnosticamente, criar uma ruptura entre os dois mundos, encontrar os pontos de intersecção que mostrem como e onde este mundo se encontra com o céu, onde e quando o eterno e o temporal se comunicam, ou melhor, como fazer com que as matérias terrenas tenham alguma relevância para a eternidade.

Eu sei que muitas vezes a vontade que nos acomete é de fugir mesmo. Porém, para aqueles que creem em um Deus transcendente e, ao mesmo tempo, atuante, talvez o melhor seja ouvir a voz do bispo de Hipona e gozar das coisas celestes. Quanto às terrenas, devemos usá-las, mas para que possamos gozar as celestes.