A dispersão diária de nossa vida

Se a vida cotidiana é capaz, com seus estímulos diversos, de abrandar os pensamentos mais obsessivos e opressores, imagine quanto mais ela não faz com outros pensamentos que, pelo contrário, já são sutis por natureza

Quando uma pessoa comete algum ato injusto, logo nos perguntamos: “Como ela consegue colocar a cabeça no travesseiro?”. Nós usamos o travesseiro como o símbolo daquele momento que nos preparamos para dormir, quando parece que os pensamentos mais importantes que rondam nossa cabeça teimam em atrapalhar nosso sono. Eu, por exemplo, tive épocas, quando acumulei problemas sérios em minha atividade profissional, que encontrava muita dificuldade para pegar no sono. Isso porque parece que tudo aquilo que estava pendente e precisava ser resolvido decidia povoar meu pensamento, com mais intensidade do que em qualquer outra hora do dia, exatamente naquele momento que eu recostava minha cabeça no travesseiro.

O pior é que, após muita luta para conseguir dormir, no dia seguinte passava o dia, se não esquecido dos tais problemas, ao menos sem que eles me incomodassem de maneira tão intensa. E isso acontecia um dia após o outro.

Comecei, então, a meditar sobre os motivos por que as coisas se davam dessa maneira e a observar o que influenciava a diferença de intensidade dos pensamentos de acordo com o momento do dia.

Percebi, facilmente, que durante o dia, por conta das atividades rotineiras, as obrigações e os outros pensamentos que ocupavam minha mente, os problemas deixavam de ser o único objeto de reflexão, tendo que dar espaço para outras questões do meu cotidiano. Mas percebi também que não eram apenas os pensamentos que diminuíam a força dos problemas em minha cabeça, mas as imagens, os sons e todos os estímulos aos quais estava exposto diariamente serviam como elementos dispersivos. Ainda que não ocupasse meus instantes com nenhuma atividade específica, apenas estar sujeito à ação desses elementos dispersivos já bastava para eu não concentrar meus pensamentos naqueles problemas que à noite dificultavam meu sono.

Se tudo aquilo me possibilitava passar o dia sem grandes transtornos, olhando por um outro prisma, também demonstrava como estamos sujeitos à dispersão constante. Se a vida cotidiana é capaz, com seus estímulos diversos, de abrandar os pensamentos mais obsessivos e opressores, imagine quanto mais ela não faz com outros pensamentos que, pelo contrário, já são sutis por natureza.

Assim, fica fácil entender porque encontramos tanta dificuldade em concentrar nosso pensamento nos estudos, nas reflexões espirituais, na oração e coisas do tipo.

Por isso, ao mesmo tempo que a vida cotidiana nos ajuda a suportar os problemas que, se não fosse o seu poder dispersivo, poderiam sufocar nossa mente, ela nos atrapalha quando queremos alçar nosso pensamento para aquelas coisas superiores, as quais, por natureza, são mais sutis e abstratas.

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Mais adiante farei uma reflexão sobre como superar essa dificuldade causada pelos elementos dispersivos na nossa vida.

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