Como um cão que fareja a migalha

O escritor tende a mergulhar dentro de si para buscar as melhores ideias. Na sua mente acredita estarem os dados necessários para expor sua criatividade. Prefere isolar-se em seu próprio mundo, evitando que a dispersão do ambiente lhe atrapalhe.

Nós mesmos temos essa visão do escritor. Imaginamo-lo absorto em seus pensamentos, cerrado em seus raciocínios. Parece até que se esconder dentro de si faz parte do seu ofício.

Mas o escritor isolado tem seus inconvenientes. Não raro, esse insulamento gera uma desconexão com as questões relevantes da sociedade. Afastar-se do mundo para escrever pode fazê-lo perder o liame com a vida real, a vida das pessoas de verdade. E quando isso acontece, é muito provável que seus escritos se tornem irrelevantes.

Isso não quer dizer que o escritor deva mergulhar, de corpo e alma, na vida terrena. Sempre é preciso algum afastamento, algum espaço para procurar dentro de si aquilo que a agitação exterior dificulta obter.

Mas, ao mesmo tempo, o escritor precisa estar atento ao que ocorre em sua volta. Como um cachorro que sente o pedaço de pão em baixo do sofá e cavouca até conseguir o seu prêmio, o escritor precisa farejar as migalhas do cotidiano que são, na verdade, o que realmente importa.

Porque a realidade acontece na vida diária e é dela que se extrai o material que vai dar ao escritor o que ele precisa dizer. Não adianta ficar apenas dentro de seu universo interior, tentando tirar tudo dali. Por mais diverso que seja seu conhecimento, o mundo vai sempre conter infinitamente mais elementos do que sua cabeça.

O que fornece conteúdo às ideias de um escritor é um amálgama do que está em sua mente e os dados da vida que não cessam de alimentá-la. É a isso que se chama criatividade. Por isso, não é possível ser criativo sem viver a vida, sem nutrir-se dela.

Não quero dizer que o escritor deva render-se ao mundo. Mas até para confrontá-lo é preciso envolver-se com ele.

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