Desconfiança mútua

Desenvolvemos, aqui no Brasil, uma desconfiança mútua que, muitas vezes, nos impede de usufruir o melhor de nós mesmos. Não sei se com razão, suspeitamos dos outros, pressupondo que suas intenções são malévolas e que alguma vantagem desejam obter sobre nós. Essa realidade talvez seja fruto de uma cultura que há muito tempo privilegia a malandragem e que apresenta como uma das virtudes brasileiras o jeitinho tão aclamado, fazendo com que esta percepção de que a fraude e o engano têm vasta aplicação por estas terras nos faça sempre prontos a esperar que alguém esteja tentando nos passar para trás.

E tudo isso é perceptível não apenas nos negócios e nos tratos, onde a palavra já não tem valor algum, senão a assinatura reconhecida em cartório, mas também nos meros debates de idéias. O que eu observo é que as partes já entram neles certos de que tudo o que o outro lado diz tem como objetivo, não a verdade, mas simplesmente a vitória. Junto a isso vem a certeza que o que conduzirá seu raciocínio será sempre a malícia e a desonestidade. Assim, não se vê mais discussão alguma, apenas uma miríade de acusações, xingamentos e tentativas ininterruptas de humilhação.

Essas reflexões me vieram à mente quando, lendo o livro Creative Disccusion, de dois autores americanos chamados George Hindis e Rupert Cortright, me deparei com a convicção deles de que o pressuposto da honestidade do participante da discussão não é apenas indispensável para a existência da própria discussão, mas faz parte dos próprios valores da sociedade em que eles vivem. O que eles afirmam é que “a fé na natureza humana, na integridade e na dignidade do indivíduo [são] parte vital da herança [deles] de americanos”.

O que ficou muito claro para mim, com tudo isso, é que em algum momento de nossa história perdemos (se é que algum dia tivemos) aquilo que é basilar para a existência de qualquer sociedade minimamente saudável, a saber, a confiança mútua como princípio e a desconfiança como mero acidente. O fato é que não possuímos isso e talvez essa realidade explique porque temos tanta dificuldade em construir uma cultura mais agregadora e porque temos tanta dificuldade em dar andamento a projetos coletivos mais consistentes.

Essas são reflexões de percepções um tanto subjetivas, é verdade, mas, ainda assim, elas me parecem bastante reais quando lembro das dificuldades que encontramos como povo para empreendermos qualquer coisa que necessite de algo mais do que ações individuais voluntariosas.

Nem sei se a sociedade americana ainda mantém viva, em seu espírito, esse senso de cooperação e de confiança primordial. Talvez, ela já comece também a sentir o sinais da corrosão dos costumes. No entanto, é notório que, comparada à nossa desconfiança impregnada, a alma americana ainda preserva algo daquele otimismo tão necessário à manutenção e desenvolvimento de qualquer comunidade.

Quanto a nós, cabe tentar aprender que, por mais que a impressão geral seja de corrupção profunda, ainda a maioria das pessoas são honestas e só isso já é suficiente para acreditar que é possível manter relações justas, sinceras e tranquilas, tão apropriadas para a boa convivência social.

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