Discriminação dos paladinos

Toda exaltação do indivíduo, por alguma conquista sua, quando feita com indicação da raça ou gênero dele, sugere, subliminarmente, que pertencer àquela raça ou gênero significa, de alguma maneira, inferioridade ou, pelo menos, que a conquista não é esperada para alguém do seu tipo.

Se a pessoa diz que “fulano, negro, passou em primeiro lugar no concurso público” ou “sicrana, mulher, foi promovida à diretora da empresa”, está, ainda que inconscientemente, aplicando à frase um advérbio oculto, que modifica a expressão, assinalando que tal fato representa, de alguma forma, uma quebra de expectativa. Seria o mesmo que dizer “fulano, apesar de negro…” ou “sicrana, mesmo sendo mulher…”.

Pode até haver boa intenção em querer destacar a raça ou o gênero de alguém, tentando demonstrar que a conquista de certa pessoa se deve também à superação pelas dificuldades impostas pela discriminação. 

No entanto, a discriminação só é superada realmente quando as vítimas deixam de ser tratadas como tais. O que eu quero dizer é que enquanto negros, mulheres e outros grupos são tratados como exceção à regra e suas conquistas como um acontecimento anormal, então saber-se-á que a segregação continua.

Aliás, é nesse sentido que deve ser entendida a fala do ator americano, Morgan Freeman, que, em uma entrevista ao programa 60 Minutes, foi enfático ao dizer que a melhor maneira de combater qualquer tipo de racismo é, simplesmente, não falando dele.

Apesar de ser esta uma fala que vai de encontro a uma percepção inicial sobre o que seria o combate à discriminação, o que ele diz faz muito sentido. Não falar, não quer dizer ignorar eventuais atos discriminatórios, mas demonstrar que realmente as raças e os gêneros não são relevantes.

Obviamente, isso não quer dizer que deve-se fechar os olhos para os reais atos discriminatórios. Eles existem e devem ser combatidos. Porém, quando não são mais os indivíduos, vítimas de discriminações específicas, mas o grupo a ser protegido, todos os indivíduos pertencentes a este grupo estão, imediata e invariavelmente, declarados como inferiores, independentemente de seus méritos pessoais. Além disso, quando tudo é discriminação e todos são vítimas, nada mais é discriminação e ninguém mais é vítima.

Há, porém, de chegar o dia quando as pessoas serão lembradas por seus méritos e sua cor de pele esquecida. Serão louvadas por suas vitórias, sem que seu gênero seja tido por relevante.

Um comentário sobre “Discriminação dos paladinos

  1. A propósito de “gênero”, faz mais de dez anos que pedi ao professor José Augusto Carvalho, da UFES, para comentar uma afirmação da pedagoga Luciana Gamero. Veja o que ela disse e o comentário do JAC, que tem mestrado em Linguística, doutorado em Língua Portuguesa e é autor da Gramática Superior da Língua Portuguesa:

    “Acreditamos que, ao não fazer essa distinção de gênero, ajudamos a derrubar essa dicotomia entre o que é tarefa de mulher e o que é atividade de homem.”

    “Espanta-me que uma educadora confunda gênero com sexo. Para ela, relações sexuais são relações genéricas? Homossexual é homogenérico? Sexo grupal é gênero grupal? Gênero lírico e dramático em literatura é sexo lírico e dramático? Quando esses imbecis vão aprender que gênero é distinção gramatical e sexo é distinção semântica e que nenhum dicionário registra sexo como sinônimo de gênero? Chama-se a isso colonialismo cultural, porque em inglês gender significa sexo e gênero.”

    Guardo com muito carinho esse precioso e-mail e o uso constantemente em discussões…

    Amplexos fraternos, amigo Fabio Blanco.

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