O medo da incerteza e a leviandade nos juízos

Há o medo de ser relativista. Justo temor! O relativismo é uma contradição, pois sua afirmação nega-se a si mesma. Dizer que tudo é relativo deve incluir a própria asserção, o que a tonaria absoluta, abalando assim seu preceito.

E para escapar desse equívoco muitos abrigam-se no pólo oposto e exigem certeza de quase tudo. Não querendo ser tidos por relativistas, acham que precisam ter absoluta convicção daquilo que pensam e dos juízos que emitem.

Não aceitam o vacilo, não suportam a dúvida, não permitem a suspensão da convicção. Querem que tudo seja preto no branco, evidente, sem o menor sinal de hesitação. Tornam-se assim intolerantes. 

No entanto, uma coisa é acreditar que não há nada certo, outra é compreender que, apesar da verdade existir e ser absoluta, sua apreensão envolve muitos tropeços. 

É que a quase totalidade dos conhecimentos que possuimos, os temos apenas em parte. Ainda que aceitemos imediatamente aquilo que sabemos por evidência, como os primeiros princípios, todo o resto tateamos na busca do conhecimento pleno.

Quando pensamos nos fatos, isso se torna ainda mais manifesto. Se os conhecimentos superiores talvez sejam passíveis de apreensão direta e total, em relação aos factuais, só temos acesso limitado. Não há fato ao qual tenhamos ingresso pleno; não existe ocorrência que possamos visualizar por todos os seus ângulos.

Querer ter certeza absoluta de qualquer coisa material parece sempre uma leviandade. A quase totalidade daquilo que chamamos de conhecimento dá-se por aproximação. Deduzimos que as coisas sejam de tal e qual maneira porque os indícios conduzem a isso. É certo que, para mantermo-nos firmes e não cairmos na dúvida, isso já é suficiente. Porém, não significa que estamos totalmente certos do que dizemos.

Uma inteligência sadia tem consciência dessa limitação e, ainda que fale com convicção, sabe que é uma convicção provisória, aberta a aprimoramentos caso o conhecimento sobre o que perscruta se amplie.

Essa é a verdadeira inteligência: segura, sem ser intolerante; cautelosa, sem ser relativista; firme, sem ser leviana.

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