O que merece a minha alma

Uma mulher decidida a aprender a falar em público me procurou. Bem instruída e comunicativa, ela dizia que, apesar de ter uma carreira bem sucedida no mercado financeiro, sentia que precisava dar um novo rumo para sua vida. A maneira como falava denunciava o quanto seu trabalho esgotara suas energias e o quanto – apesar do retorno financeiro que lhe proporcionava – se tornara um peso em sua vida.

Os alunos que me procuram costumam ser como ela: gente que está buscando um novo caminho para sua carreira profissional. São pessoas que estão cansadas de sua rotina de trabalho e querem encontrar algo que lhes dê sentido.

Elas compartilham seus planos e fica visível a expectativa que alimentam em relação a essa nova experiência. Imaginam-se vivendo de suas aulas, palestras e atendimentos. Mas o que fica muito claro é que o que elas estão buscando mesmo é um modo de vida que lhes proporcione liberdade, independência e, de alguma maneira, realização.

Os jovens da minha época tinham outras perspectivas. Quase todo mundo queria ser engenheiro, médico, advogado ou funcionário público. As universidades eram a escala inescapável para isso. Outros decidiram que deveriam seguir uma carreira bem sucedida numa grande empresa, numa instituição respeitada. O objetivo era ter sucesso no meio corporativo. Para suprir essa necessidade é que surgiram os programas de trainees, os MBAs, os planos de carreira.

Muitos de minha geração se lançaram por esse caminho. Muitos se deram bem. Construíram suas famílias e as colocaram dentro de seus apartamentos corretamente decorados, levando seus filhos de cá para lá em seus carros confortáveis. Alguns até ficaram ricos. Boa parte deles construiu uma vida estável, correta, daquelas que dá para seus pais assuntos para estes se gabarem nos eventos sociais.

Mas por trás desse verniz de sucesso, algo parecia corroer a alma dos meus contemporâneos. Não foram poucos os que perceberam que a carreira profissional, por mais sólida e recompensadora que fosse, poderia ser mais opressiva do que valia a pena suportar. Entenderam que a família que tinham não bastava ser como um troféu, a ser exibido orgulhosamente. Precisavam sentir que eram mais do que meros produtores de renda. Começaram a clamar por uma vida que fizesse mais sentido.

Trabalho com sentido, então, começou a virar moda. As atividades autônomas entraram em voga. A saturação e o declínio das profissões tradicionais, aliados a uma necessidade crescente por realização, levou cada vez mais pessoas a buscar trabalhos que oferecessem mais do que estabilidade e um bom salário, mas que também trouxessem satisfação pessoal.

Hoje, para todo lado que eu olho, encontro gente arriscando-se em atividades que fogem dos padrões consagrados. Há um despertar por trabalhos que prezem pela liberdade, independência e autonomia. Palestrantes, coaches, empreendedores, influenciadores digitais, além de instrutores de yoga, chefs de cozinha, professores e escritores diversos – todos em busca de fazer algo que lhes ofereça mais do que retorno material, mas felicidade.

Isso significa que as pessoas finalmente estão encontrando a razão para vida delas e estão se sentindo plenamente realizadas com aquilo que fazem? Não, necessariamente.

Não são poucas que, observo, acabam tão saturadas como antes, quando exerciam suas atividades tradicionais. A quantidade de gente que começa a mostrar sinais de cansaço, e até de arrependimento, depois de decidir por um trabalho alternativo não é pequena. Logo, percebem que a rotina é algo inerente a qualquer tipo de atividade; que todas elas exigem alguma perda de liberdade; que a sensação que se tem, seja o que se fizer, é que os ganhos que se obtêm nunca são proporcionais ao esforço dispendido.

A realidade mostra sua face e muitos daqueles que mudaram de vida, esperando encontrar a realização na escolha de atividades que lhes oferecessem mais liberdade acabaram frustrados. Se viram, de repente, tão esgotados como antes; tão estressados como antes; tão perdidos como estiveram antes.

Onde está o problema, então? No fato das pessoas estarem tentando realizar-se por meio da atividade em si mesma. O que elas estão procurando é algo que gostem de fazer, algo que, de alguma maneira, lhes dê prazer.

Mas, como eu disse, não há trabalho que não contenha sua porção de enfado, sua dose de tédio, seu conjunto de problemas que exigem de nós paciência. Tudo o que se escolha fazer vai cobrar algum sacrifício sem, boa parte das vezes, recompensá-lo. Independentemente do trabalho que se decida exercer, não vai ser tudo sempre prazeroso. Pelo contrário, é quase da natureza de qualquer trabalho ser exatamente o contrário disso.

Isso não significa que a busca por atividades que nos proporcionem algo que nos faça sentido é ilegítima. Eu mesmo mudei radicalmente minha vida ao fechar meu escritório de advocacia e dedicar-me exclusivamente à minhas aulas e meus estudos. Fiz isso exatamente porque estava buscando um sentido.

No entanto, desde o princípio, eu sabia que essa decisão não poderia ser tomada com vistas a uma satisfação pessoal superficial. Nem mesmo deveria escolher algo para ter uma rotina mais leve. Menos ainda tentar encontrar aquilo que chamam de “melhor qualidade de vida”. Qualquer escolha baseada nestes critérios – eu tinha plena consciência disso – estava fadada ao fracasso.

O que fundamentou a minha decisão foi a seguinte pergunta que fiz para mim mesmo: o que desperta a minha paixão, de tal maneira, a ponto de que, ainda que me exigisse os maiores sacrifícios, ainda que custasse a minha paz, ainda que cobrasse a minha própria felicidade, eu continuaria fazendo até a morte? Que tipo de trabalho despertaria em mim um entusiasmo semelhante ao de Fustel de Coulanges, que teve a saúde arruinada por sua dedicação intensa à sua obra intelectual? Ou de um Miguel Reale, inscrevendo-se em um curso de filosofia aos 99 anos de idade? Ou mesmo de um Dr. Pradeep Seth, que chegou a fazer a si mesmo de cobaia em suas experiências no desenvolvimento de medicamentos de combate ao HIV?

Veja que não me questionei sobre o que me faria feliz, menos ainda o que me proporcionaria prazer. Minha decisão foi baseada na resposta dada a uma pergunta muito simples: o que eu faria até morrer, ainda que isso me exigisse sacrifícios?

Qualquer outro motivo para se escolher a atividade que será aquilo para o que você irá dedicar quase todo o seu tempo de vida e a maior parte de suas energias é irrelevante. O que não for definitivo, o que não mereça uma entrega plena, até o seu próprio sacrifício, não é digno de você. O que não fizer jus à sua dedicação máxima, ao seu empenho radical, não passa de uma função, de um instrumento, de algo intermediário que até lhe pode proporcionar muitas coisas boas, mas que nunca vai receber de você o mais importante: sua alma.

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