O realista extremo

O extremo realista costuma ser desagradável. Quem já teve um amigo sincero, daqueles que vê nossos vacilos e faz questão de apontá–los, deixando claro que faz isso por se orgulhar de dizer a verdade, sabe do que eu estou falando. Quando penso sobre isso, lembro de Erasmo de Roterdã, que dizia que não gostava dos amigos com memória muito fiel. Pessoas assim podem até ser realistas, mas não significa que estejam certas.

Na verdade, acreditam ser fiéis à realidade, mas costumam ser enganados por ela. Isso porque confundem-na com aquilo que seus olhos vêem. Tomam-na por sua aparência e terminam acreditando que o que enxergam é a verdade última. Reproduzem o que vêem e acreditam, assim, estar sendo realistas. Gabam-se disso, inclusive. Entendem até possuir algum tipo de superioridade, por pensarem não ser dispersados, como quase todo mundo, pelas ilusões e fantasias.

O problema é que a aparência fenomênica – aquela que primeiro se nos apresenta – pode conter, mas dificilmente pode-se dizer é a própria realidade, sendo desta apenas sua manifestação mais exterior. São o seu traço visível, mas que esconde todo um sentido e uma razão por trás. Aquilo que uma pessoa é, por exemplo, pouco pode-se extrair de seu aspecto aparente. Conhece-se realmente alguém apenas após muito convívio e observação cuidadosa de seu comportamento, pensamento, história e outros elementos que compõem sua vida. Por isso, diz-se: a aparência é enganosa.

Além do que, apesar dos fenômenos possuirem um pouco de estabilidade, contêm muito de contradição, inconstância, fragilidade e incoerência. Quem vê apenas as aparências das coisas acaba confuso. O homem pode orgulhar-se de ser um empírico, mas do empirismo extrai-se muito pouco.

Por isso, quem se acostuma a substituir a verdade pela aparência acaba concluindo que a vida é má. Se a realidade é, assim, tão instável, então ela não é confiável. Mas se ela é a realidade resta apenas a lamentação. Essa é a razão por que os realistas extremos tornam-se cínicos, pessimistas e, invariavelmente, desesperados.

O que eles não entendem é que esses fenômenos aparentes não mostram o sentido verdadeiro das coisas. São apenas uma parte de sua realidade – uma parte indicativa, mas inconfiável.

Para compreender a realidade é preciso olhar além das aparências. É necessário rastrear as causas, observar as circunstâncias, entender os motivos e prever as contingências. Mais ainda, há verdades invisíveis por detrás dos fenômenos que apenas uma inteligência supra-material pode abarcar.

A realidade fria, mostrada nos meros fenômenos, é triste, quase insuportável. Quem olha apenas para eles – ou mesmo principalmente para eles –, além de acabar perdendo todas as esperanças, tem grande chance de cair em desespero. Como o que os fatos apresentam não pode ser considerado, estritamente, como verdade, nem como o sentido de nada, quem se apega exclusivamente a eles acaba louco.

Por isso, todo ser humano, para manter a sanidade, precisa saber escapar da mera aparência. Precisa navegar pela poesia, viajar pela literatura, sonhar na fantasia, abrigar-se na espiritualidade, mergulhar na filosofia e até deixar se perder um pouquinho na ilusão. Para não ser triste, a pessoa sã precisa saber que essa realidade que ela vê, com toda sua inconsistência e despropósito, não é toda a realidade. Pelo contrário, às vezes é um pedaço bem pequeno dela; outras vezes, até a contradiz.

O realista extremo precisa tomar muito cuidado, pois quem tem essa obstinação pelo visível possui uma forte tendência de terminar com uma bala nas têmporas.

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