Quantos livros devemos ler

Schopenhauer era um ardente crítico dos eruditos que liam por compulsão e não reservavam tempo para refletir sobre o que seus olhos tinham acabado de ver. Em seu livro ‘A arte de escrever”, ele se mostra convicto de que a leitura em demasia desacostuma da clareza e profundidade necessárias para a verdadeira compreensão.

Haveria, então, um limite às leituras? Seria de bom senso ler, mas com certo cuidado, evitando o que poderia ser considerado um excesso?

Que ler é essencial para o desenvolvimento intelectual não há a menor dúvida. Nas publicações escritas encontram-se os tesouros do conhecimento e da sabedoria. Nem mesmo a internet, com sua promessa de expansão infinita da informação, conseguiu substituir a profundidade de conteúdos que apenas é encontrada nos livros.

Ler é indispensável. Ainda assim, é importante ressaltar que a quantidade de livros consumidos não é indicativo absoluto de conhecimento, muito menos de sabedoria. Há eruditos bastante inteligentes, como há os estúpidos. Há quem leia muito e não aprenda nada, como há os que pouco lêem e, ainda assim, conseguem desenvolver bem suas inteligências.

A única certeza nisso tudo é que quem não lê não cresce intelectualmente. Sem leituras é impossível possuir qualquer conhecimento substancial. No entanto, não é porque um livro foi publicado que, automaticamente, ele mereça ser lido. Sertillanges dizia que “livros existem por toda a parte, mas só bem poucos são indispensáveis”. O mundo está cheio de publicações inúteis, lotado de livros irrelevantes. Livros não possuem valor em si mesmos. Fica claro, portanto, que despender energia na leitura desses livros não é aconselhável. Nosso tempo é precioso e perder dias em leituras que nada acrescentam à nossa vida é desvalorizá-lo sobremaneira.

Sinceramente, eu não acredito na ideia, tão difundida, de que todos os livros são úteis; que, ao menos, eles servem para desenvolver o hábito da leitura. Na verdade, a maioria deles é prejudicial. No mínimo, suga tempo e energia do leitor. Em casos piores, vicia na má literatura, o que a torna desaconselhável.

Um livro, para merecer ser lido, precisa ter algo de substancial. Se ele não provocar uma mudança positiva no leitor, não serve para nada. Toda leitura que valha a pena precisa causar algum tipo de acréscimo intelectual, espiritual ou moral. Se não for capaz disso, deve ser dispensada.

Porém, ainda que a maioria dos livros seja ignorável, é certo que existe uma multidão deles que merece ser lida. São em número tão grande, que é impossível lê-los todos em uma única vida. Por isso, LEIA O MÁXIMO QUE PUDER.

Eu não compactuo com o conselho de moderação, beste caso. Não acredito que deva ser algo feito com parcimônia. Conhecer é bom e o conhecimento está nos livros; portanto, quanto mais lermos mais conhecimento teremos – e isso, por si só, é bom.

Mas não significa que deve-se enterrar a fuça nos livros e devorá-los como hienas sobre a carniça. Apesar de tudo, o que fará maior diferença no desenvolvimento intelectual não será a quantidade de leituras, mas a maneira como elas são deitas. Até porque de nada adianta ler muito se o conteúdo não for adequada e profundamente absorvido. Leituras feitas assim transformam letras em sementes entre pedras, que não criam raízes.

Por isso, todas leituras devem ser feitas com objetivo, não por compulsão. Os eruditos criticados por Schopenhauer a faziam por vício, por fetiche. No entanto, delas, no máximo, extraíam informações, não conhecimento. A repreensão do pensador alemão, porém, serve a todos nós. Devemos ler sabendo porque lemos, certos do que buscamos, conscientes do que queremos.

É por essa razão que toda leitura deve conter algo de relevante. Ainda que seja preciso suportar uma parte do livro até encontrar o que realmente importa, é imprescindível que ele possua algo de substancial a oferecer. O fato é que toda leitura, de alguma maneira, precisa fazer sentido. Convicto disso, hoje em dia não tenho mais nenhum pudor de abandonar uma obra quando percebo que ela não possui nada de relevante a me oferecer. A vida é preciosa demais, e seu tempo também, para jogá-la fora com o que não importa.

No entanto, não adianta o livro possuir um conteúdo relevante se esse conteúdo não for bem absorvido. Seria como pérolas lançadas a porcos. Não sem razão Sertillanges insistia na importância da solidão para o desenvolvimento intelectual e Schopenhauer criticava quem lê muito, mas não pensa sobre nada. Ler muito sem dar o devido tempo para a digestão dá congestão. O certo é encontrar um equilíbrio entre leitura e reflexão. O conteúdo precisa ser refletido. O que o autor escreveu precisa frutificar na alma do leitor. Sem isso, são apenas palavras ao vento.

É por essa razão que toda leitura deve ser feita com muita atenção. Exige-se concentração. Portanto, leia sempre na medida em que a compreensão do conteúdo esteja acontecendo plenamente. Não adianta nada voracidade sem assimilação. Quando a leitura torna-se enfadonha, a concentração esvai-se e a compreensão fica prejudicada, melhor fechar o livro e retornar mais tarde. Pestanejar sobre ele pode parecer um ato heroico, mas não passa de esforço de Sísifo.

Não quero dizer com isso que sou aliado daqueles que acreditam que a leitura deve sempre ser prazerosa. Pelo contrário, muitas vezes ela demanda bastante esforço. Ler é, em boa parte das vezes, como uma batalha. Mas, ainda assim, esse esforço só é válido se dele resultar uma boa compreensão do que se está lendo.

De tudo o que expus, o mais importante é saber que ler é sempre bom e ler bastante melhor ainda. No entanto, para que essas leituras sejam proveitosas é preciso que elas façam alguma diferença.

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