Ajuda adversária

Narrativas que são criadas para destruir algo, se não alcançam seu intento, acabam por fortalecê-lo. E é isso o que está ocorrendo com Jair Bolsonaro, desde quando ele começou a aparecer na mídia como pretendente à cadeira presidencial. Por mais que se tenha falado dele com o uso dos piores adjetivos, em nenhum momento ele sofreu algum tipo de desgaste ou de perda de vigor entre seus eleitores. Pelo contrário, parece que quanto mais estórias inventam a seu respeito, mas ele se fortalece e cresce nas intenções de voto. Mas isso não acontece por acaso.

Essas narrativas – geralmente, tirando conclusões desvirtuadas de fatos e falas apartadas de seus contextos verdadeiros – pretendem apresentar o candidato como alguém desprezível, reprovável, não digno de confiança. No entanto, deve-se atentar que, antes de mostrar quem ele é, o que essas narrativas fazem é mostra-lo, de qualquer jeito. E isso o ajuda.

O que esses criadores de narrativas não entendem é que as conclusões que eles propõem embutidas nelas não são absorvidas de imediato pelo espectador. Na verdade, essas conclusões precisam ser, de alguma maneira, processadas, compreendidas e, por fim aceitas. Já a imagem que eles apresentam, esta não passa por um processo tão complexo – ela é absorvida na hora.

Em geral, o espectador não conclui que fulano ou sicrano é corrupto, mau, inconfiável. Ele, na verdade, percebe isso. O que eu quero dizer é que a maioria das pessoas, em princípio, não conclui sobre um caráter de uma outra pessoa – sobre o qual elas possuem informações truncadas e parciais – por meio de um processo racional e argumentativo. Caráter – que está ligado a credibilidade e Aristóteles chamava de ethos – é muito mais percebido do que inferido.

Sendo assim, uma narrativa que tenta destruir a imagem de uma pessoa, antes de conseguir isso, vai fazer algo em favor dela: apresentá-la. E ao apresentá-la dará a chance para ela ser observada por aqueles que ainda não a conhecem e, caso ela possua, em aparência, as qualidades positivas que esses espectadores esperam ver nela (credibilidade – ethos), a narrativa negativa será ignorada e o que permanecerá será a imagem positiva.

É por isso que Bolsonaro não ‘desidrata’, como esperavam alguns iluminados da mídia. Porque, cada vez que essa mesma mídia o destaca, ainda que em uma tentativa de destrui-lo, ela acaba dando a chance para que mais pessoas, que ainda não o conheciam melhor, possam olhar para ele, captar sua credibilidade e acabar confiando nele.

Não que essas narrativas maledicentes não tenham efeito em outros contextos. Elas podem funcionar muito bem em relação a pessoas já suficientemente conhecidas. Nestes casos, tais narrativas podem entrar para fortalecer uma percepção já existente nas mentes. No caso de Jair Bolsonaro, porém, isso não acontece, por ser ele ainda razoavelmente desconhecido de boa parte das pessoas, não havendo ainda uma imagem definida a ser destruída pela narrativa.

É por essa razão que insistirem tanto em falar de Bolsonaro é um favor que fazem a ele. Mas é evidente que não seria assim se o capitão não tivesse as caraterísticas pessoais que causassem essa identificação positiva com o povo. No entanto, ele as possui. Na verdade, seu jeito, sua maneira de pensar, sua forma de agir e até suas dificuldades próprias são muito semelhantes a do homem comum, que vê nele, neste momento de completo desalento com qualquer tipo político, alguém semelhante.

Por isso, a mídia e mesmo seus adversários de campanha fazem, ainda que sem querer, um serviço em favor de Bolsonaro. Ainda que ele tenha um espaço menor dentro dos grandes veículos de comunicação para apresentar-se ao povo, ele pode contar com seus adversários para fazer isso por ele.