Militância teológica

Um dos motivos do meu afastamento dos debates doutrinais-teológicos (e mesmo das conversas sobre teologia) foi minha percepção da insensibilidade generalizada em relação às nuances teóricas dos temas religiosos, que é quase a regra nesse tipo de situação.

Minha paciência esgotou-se ao ver tantas pessoas inteligentes se arrogando no direito de discutir assuntos tão sérios, como os teológicos, posicionando-se como meros militantes políticos, dispostos a tudo para vencer o debate, impassíveis em suas posições e incapazes de analisar os argumentos opostos dentro da perspectiva dos próprios opositores, o que seria um pressuposto óbvio da atuação inteligente em qualquer discussão.

O pior é vê-los, diante de diferenças sutilíssimas de interpretação, tratarem as ideias adversárias como absurdas, estapafúrdias. Agem, diante do detalhe, como se estivessem defronte o pensamento mais extravagante.

Os debates entre calvinistas e arminianos são o exemplo exato disso. Mas essa realidade pode ser estendida às conversas entre os cristãos de qualquer vertente.

É impressionante como ideias tão próximas, tão congêneres, podem ser tratadas como se fossem pólos diametralmente opostos e seus defensores acusarem-se mutuamente de exporem absurdidades.

A verdade é que um sinal claro de inteligência é a capacidade de percepção e separação, de um lado, das ideias que são absurdas, que se manifestam como um verdadeiro nonsense, e de outro, daquelas que, apesar de constarem no repertório adversário, possuem uma coerência interna que, no mínimo, deveria merecer respeito.

E o fato é que a grande maioria dessas teses teológicas são deste último tipo, dificilmente podendo ser consideradas absurdas em si mesmas. Todas elas, de alguma maneira, encontram sua razão em algum fundamento reconhecível, seja no texto, seja na lógica, seja no bom senso, seja na história.

Portanto, não perceber isso e tratar tudo o que não está de acordo com as próprias convicções como estupidez (que é o que boa parte dos debatedores teológicos fazem), é sinal claro de fanatismo comum à arena política, além de ser uma demonstração evidente de obtusidade.

Não há relação intelectual sadia com quem age dessa maneira. Pior ainda, essa atitude impede o próprio desenvolvimento da inteligência, pois a desconsideração do argumento adversário, principalmente pela incapacidade de reconhecer nele sua lógica própria, ainda que não concordando com ela, é praticamente a própria definição de ignorância.

A essência do cristianismo

O pensamento cristão foi inundado, durante esses dois mil anos, por discussões que, sem negar a importância delas, não fazem parte do núcleo de sua revelação.

Com isso, com o tempo, o tesouro do cristianismo foi sendo esquecido e hoje são pouquíssimos cristãos que conseguem entender qual é a proposta fundamental dessa religião para o homem.

E essa proposta, o que pode ser surpreendente para muita gente, é absolutamente lógica, racional e objetiva.

O cristianismo é, sim, de uma racionalidade ímpar e de uma lógica incontestável. O que ele propõe faz todo o sentido e é uma resposta perfeitamente adequada ao drama humano fundamental.

É uma pena que os próprios cristãos tenham se confundido no mar de teologias apresentadas e hoje nem eles conseguem ver além de uma grande mixórdia de teorias e práticas.

O erro piedoso dos teólogos do absoluto

Há um tipo de erro de pensamento teológico que se dá por excesso de piedade. Ele ocorre quando, ao se conceber os atributos divinos, tender ao entendimento de que, quanto mais absoluta for essa concepção, mas correta ela será. E é assim que muitos teólogos pensam a soberania de Deus. Raciocinam que imaginar maior autonomia do ser divino significa ser mais piedoso e, pelo contrário, quanto mais se pensa em qualquer tipo de limitação da parte de Deus, mais esse pensamento é blasfemo. Continuar lendo

Esterilidade do ensino desapegado da experiência

Acreditas que é possível ensinar cristianismo sem o aporte da experiência?

Continua preocupando-te apenas com a correlação dos textos, com o correto apontamento dos versículos bíblicos, com a certeza de que tua fala está alicerçada nos compêndios de teologia e com a fidelidade de teu ensino à doutrina de tua denominação e permanecerás gozando da total irrelevância.

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