Grandes pensadores do Ocidente — de medievais a renascentistas, de modernos a contemporâneos — reconheceram os estoicos como modelos de comportamento e suas ideias como inspiradoras. Houve também críticos, mas mesmo estes dificilmente negavam o valor das proposições estoicas. Afinal, tratava-se de uma ética superior, promotora do aperfeiçoamento do indivíduo.
Não por acaso, muitos desses pensadores, identificando uma semelhança entre a ética estoica e o cristianismo, tentaram conciliá-los, como o fez, explicitamente, o movimento neoestoico entre os séculos XVI e XVII. No entanto, tal conciliação já se mostrava, desde o princípio, problemática, por se tratar de dois movimentos de naturezas completamente distintas. Isso porque, enquanto o estoicismo oferece conselhos para a “arte de viver” neste mundo, o cristianismo nega este mesmo mundo, apresentando-o como fonte de sofrimentos e oferecendo-se como a via de salvação eterna para além dele.
Não bastassem proposições tão discordantes, há ainda distinções fundamentais: o estoicismo é absolutamente materialista, insuperavelmente imanentista, inflexivelmente monista, rigorosamente racionalista, egoisticamente individualista, inapelavelmente determinista e, consequentemente, ateu; já o cristianismo acredita em verdades espirituais, defende realidades transcendentes, não rejeita as emoções, promove o altruísmo, prega o amor e o sacrifício, defende o livre-arbítrio e acredita na existência de um Deus criador.
Obviamente, discrepâncias fundamentais tão profundas só poderiam posicionar estoicismo e cristianismo em lados opostos na relação com a existência, tornando-os, assim, absolutamente inconciliáveis. E, ainda que se aleguem semelhanças exteriores — principalmente em seus conselhos comportamentais —, isso ocorre apenas porque é o objetivo de toda ética, como de toda religião, promover a melhora do ser humano. No entanto, essas são similaridades epidérmicas se comparadas às suas dissemelhanças cardinais. Por isso, tentar unir estoicismo e cristianismo como se fossem ideias-irmãs é apenas uma tentativa de fundir forçosamente visões de mundo antagônicas, gerando apenas confusão e ambiguidade.