Rebeldes e selvagens

Pessoas de espírito rebelde gostam de referir-se a si mesmas como selvagens. Comparando-se ao animal que vive solto na natureza e que não é domesticado por ninguém, pensam suas vidas como a de leões que a ninguém se submetem.

No entanto, esta visão sobre o que é ser selvagem está profundamente equivocada. Na verdade, selvagem é a antítese de livre.

Até porque, apesar da aparência de autonomia, o selvagem não pode ser nada além daquilo que lhe foi determinado pela sua natureza. O selvagem está confinado a ela e dela nunca escapa. Isso porque o selvagem está inexoravelmente sujeito ao instinto e às inclinações e jamais pode superá-los.

Não há no selvagem nada daquele mínimo de razão que lhe permitiria agir de maneira diferente do que lhe foi imposto desde sempre. Sua tendência é seu cárcere, seu instinto sua prisão.

Portanto, aqueles que, encantados com os movimentos bestiais, tentam ser como feras, correndo para todo lado, agindo sem dar conta a ninguém e dando vazão indiscriminada a seus impulsos, saibam que o máximo que alcançarão é ser servos de suas partes mais inferiores, até o dia em que forem cativados pelo primeiro dono de circo que decidir domá-los.

Os dois moralistas

O moralista religioso pode ser chato, mas o moralista secular é perigoso. Aquele defende sua fé, aponta os erros alheios e acredita que quem age fora de seu padrão vai para o inferno. O moralista secular, porém, como acredita que defende seu tempo e sua sociedade, não ameaça seus desafetos com uma punição futura, mas com o paredão logo ali.

Preguiça não é brincadeira

Falar sobre preguiça desperta, muitas vezes, algo meio lúdico, como se tratasse de uma brincadeira inofensiva. Mesmo sabendo que ela é um vício, algumas pessoas costumam vê-la apenas como uma travessura inócua, uma traquinice sem maiores consequências. Inclusive, sempre quando eu escrevo algo sobre o tema, há aqueles que fazem algum tipo de troça, tratando a preguiça até como algo agradável.

Porém, quem tem a experiência constante da preguiça sabe que ela não é tão inofensiva quanto parece. Uma vida que cede constantemente a ela sofre, mais cedo ou mais tarde, as sérias consequências de sua presença.

Quem já viu diversos projetos deixarem de ser concluídos, quem já teve de responder por danos causados por não entregar o que havia sido prometido, quem sente que sua vida é fundamentada em inconstância, quem vê o tempo passar sem conseguir construir nada, quem atinge uma certa idade mas sente-se um garoto imaturo que não consegue colocar em prática nada de mais importante e quem até já foi responsabilizado por não cumprir o que era sua obrigação sabe muito bem que a preguiça não tem nada de inocente.

Alguns podem brincar com o assunto e até dar a entender que com eles, apesar da preguiça, as coisas seguiram na normalidade. Isso pode até ser verdade. No entanto, provavelmente, tratam-se de pessoas que realmente têm um talento fora do comum, a ponto de suplantarem essa falha ou são pessoas que encontraram, por sorte, algo que lhes proporcionou algum retorno, independente do esforço. Porém, isso não é a regra. Em geral, a preguiça causa muitos males e atrapalha a vida de muita gente.

Quando resolvi abordar o assunto, como fiz em meu ebook Por que somos preguiçosos, foi porque eu percebi que havia algo de nefasto na preguiça, algo que acarretava consequências muito piores do que meros contratempos e inconveniências.

Passei a encará-la, então, como um vício, daqueles que precisam ser afastados da nossa vida se quisermos tomá-la de volta, se quisermos ter saúde, se quisermos manter a sanidade.

Eu, em uma época da minha vida, experimentei os efeitos da preguiça e eles não foram nada agradáveis. Cheguei ao ponto de que se não fizesse algo certamente veria ruir qualquer sonho e planos que havia estabelecido. E tudo isso não afetaria apenas a mim, mas minha família e aqueles que viviam em minha volta.

Quando eu falo sobre a preguiça, portanto, não estou abordando apenas um assunto curioso, que pode ser interessante para comentar. Estou falando de algo sério, de algo que eu sei pode mudar a vida de qualquer pessoa.

 

Texto publicado originalmente no blog Vida Independente

Vigor na irrelevância, placidez na importância

Nos assuntos mais irrelevantes, nos quais poderiam manter, para o bem da convivência social, aquela atitude plácida e conciliadora, as pessoas gabam-se de ser sinceras e mostram a mais firme convicção, chegando a defender suas preferências com grosseria e violência.

Nos temas mais importantes, naqueles que exigem firmeza de ânimo e coragem, porém, são vacilantes, e esquivando-se de pensar neles, preferem a omissão e a complacência.

Briguento quixotesco

Alguém que não tenha consciência da complexidade da vida, não está pronto para escolher de qual lado deve estar. Como pode fazer isso, se sua perspectiva é unilateral, escolhida, invariavelmente, por afeições subjetivas e sentimentos superficiais? E ainda que seu lado seja fruto de uma tradição, apesar da não estar tão longe da verdade, ainda assim corre o sério risco de compreendê-la tortuosamente, sem as sutilezas e detalhes que lhe são características.

O mal, que Chesterton chama de concentração espiritual, ou seja, o vício de olhar tudo sempre sob o mesmo ponto de vista e obcecar-se por uma ideia única, afeta, sem dúvida, todos aqueles que mergulham em movimentos ideológicos e seitas heterodoxas, mas, por mais que isso pareça estranho, também ocorre, com certa frequência, mesmo em quem se diz conservador e defensor de liberdades.

Canso de testemunhar tradicionalistas, conservadores, liberais e direitistas que, em princípio, parecem se afastar do espectro ideológico, falando, pensando e agindo exatamente da mesma maneira que qualquer militante revolucionário. Sim, pois a partir do momento que não conseguem enxergar nada além de suas próprias perspectivas e as têm como a solução absoluta para todos os problemas mundanos, podem até não urrar nas ruas, mas pouco se diferenciam dos rebeldes barulhentos.

Longe de mim sugerir que o certo seria manter-se em uma zona indefinida, sem opiniões e sem partidarismos. Eu mesmo, vocês sabem, estou longe de fazer isso, expondo minhas ideias com o máximo de claridade possível e sem medo de tomar posição. O que eu entendo ser perigoso é fazer isso sem considerar as ideias a partir de pontos de vistas múltiplos, entendendo as razões que levaram às suas criações, para, a partir disso, tomar as próprias decisões.

Quem se fecha dentro de uma visão cerrada, como em um castelo, agindo como se fosse um guerreiro que luta contra seus inimigos, pode até parecer, para os olhares mais incautos, um templário ou um herói, porém, de fato, há uma grande chance ser apenas um briguento quixotesco, atacando seus próprios moinhos de vento.

A adaptação do sonho em uma carreira útil

O jovem costuma imaginar sua vida como se houvesse um caminho aberto, aguardando ele trilhá-lo, até a conquista de seus maiores sonhos. O sucesso parece-lhe apenas uma questão de planejamento e tempo. Passados os anos, porém, o peso da realidade costuma conduzi-lo a uma resignação fria, fazendo com que a esperança se transforme em conformismo, sem qualquer pretensão, senão a conquista do necessário para uma existência confortável.

O ideal seria, porém, que, em vez de acomodar-se em uma vida inútil, a decepção com a impossibilidade das altas conquistas o fizesse adaptar o que era quimera em algo factível. O que antes era um devaneio egocêntrico deveria transformar-se na convicção de completar uma carreira que apresentasse ao mundo, pelo menos, a tentativa de entregar uma boa obra, que fosse, e que representasse algo que estivesse além do mero desejo de satisfazer suas próprias vontades.

A velhinha de Zaragoza e o espírito de nosso tempo

Fatos isolados, muitas vezes, representam fielmente o espírito de uma época. Há certas atitudes que, ainda que pareçam únicas, são, na verdade, uma amostra perfeita de seu tempo. Quando, há um ano, li a notícia da velhinha de Zaragoza, que, ao tentar restaurar uma pintura do século XIX com a imagem de Cristo, simplesmente a destruiu, tornando-as, ela e a pintura, objetos de zombaria e escárnio, pensei: ‘Está aí uma demonstração exata do que fazemos’!

Cristo no parece, por tantas vezes, desgastado com o tempo. Seu olhar místico atrai pela peculiaridade, mas as marcas dos anos se mostram mais fortes que tudo. Ao olhar para ele, ainda é possível captar a singeleza de seu semblante voltado para as coisas celestiais, mas a ação dos elementos deste mundo insistem em tomar, pouco a pouco, sua beleza. Vendo a imagem de Cristo corrompendo-se assim, esperamos, inconsolavelmente, o dia em que nada sobrará de sua face.

E é insuportável ver Cristo se apagando. Não importa que o desgaste se dê por culpa nossa, que deveríamos abrigá-lo com zelo. Nem importa que o nosso descaso seja o seu maior promotor. Queremos apresentar um ícone apreciável, afinal, uma imagem em decomposição não é muito atrativa. E Cristo, pensamos, precisa ser agradável aos olhos e às sensações.

Surge, então, nosso espírito restaurador. E todo homem o possui em latência. Se Cristo não é mais tão agradável, porque os tempos o desgastaram, há em cada um de nós o anseio por reforma pronto para lançar-se sobre a a figura do Messias e fazê-la de acordo com nossas expectativas. Que seja a fazer isso um moço ou uma senhora octogenária não importa! Sob a conivência daqueles que também não se agradam com a imagem desgastada de Jesus, qualquer um que se lance à empreitada de sua restauração não é impedido. Nem mesmo os sacerdotes o fazem. Eles mesmos, filhos de sua época, anseiam sempre por mudanças.

O que mais espanta, no entanto, é a petulância com que nos dignamos possuidores dos talentos necessários para obra tão difícil. Cremos, sinceramente, que nossos paradigmas, nossos conhecimentos e nossas percepções são suficientes para restaurar o deus quase esquecido. Sequer nos preocupamos a respeito das razões da obra-prima. O seu criador, para nós, é como se não existisse. Como se o Cristo não tivesse uma origem, uma finalidade, uma razão. Quando nos colocamos a reviver um Jesus quase perdido, o fazemos baseados em nossas abstrações, em nossos prismas individuais, em nossa própria visão da vida.

Borramos-no, então, sem medo! Não há compromisso algum com o projeto original. E fazemos isso não porque queremos oferecer um novo deus para o mundo, mas porque acreditamos que o Cristo que surgirá de nossas mãos será o retrato fiel do original. Cada um de nós se crê o restaurador e o intérprete final da obra como ela fora apresentada ao mundo.

Lançamo-nos, então, com audácia e descuido sobre Jesus. Derramamos sobre ele nossas tintas descuidadas e arrogantes. O resultado que alcançamos, com isso, não é nem uma nova imagem atraente, nem o renascer revigorado da velha imagem desgastada. O fruto dos pincéis soberbos que carregamos, instrumentos de nossa própria petulância, é um borrão de Cristo, que não apenas não lembra nada o original, mas serve de escárnio para o mundo inteiro.