‘A Morte da Razão’, de Francis Schaeffer

O desespero do indivíduo moderno não é fruto de seu materialismo, mas de uma espiritualidade vazia de sentido, que valoriza o místico por ele mesmo, não havendo com quem manter comunhão. Tendo substituído a visão do homem integral pela dissociação da graça e da natureza,  acreditou ter encontrado a liberdade, mas se deparou unicamente com a angústia. Vivendo uma autonomia sem fundamentos, tornou-se escravo de sua própria liberdade, restando apenas a desesperança de qualquer redenção razoavelmente racional.

Francis Schaeffer, em seu livreto “A Morte da Razão”, compreendeu que essa maneira de enxergar a vida, lançando para o andar superior um misticismo irracional, completamente apartado da realidade sensível, é a marca dos nossos tempos, quando o espiritual se encontra numa dimensão superior, à parte, sendo alcançado somente por meio de um salto místico.

De qualquer forma, essa forma de ver as coisas não ocorreu por uma escolha direta, mas era a única alternativa possível para quem perdeu todas as referências. Se antes o céu e a terra se encontravam numa relação medida por símbolos racionais que, a despeito da sublimidade das coisas celestiais, estavam presentes no cotidiano, a partir do Renascimento o paraíso desceu, se confundiu com o pó e perdeu o caminho de volta.

Acontece que o anseio espiritual não se perdeu, mas agora se encontra preso a uma máquina determinista que o sufoca. Acorrentado a um mecanismo asfixiante, restou-lhe apenas o salto, um voo irracional que tenta encontrar o alívio no misterioso, no superior.

Diferente do homem anterior que, na racionalidade submetida a Deus, exercia seu pensamento livremente, o moderno se aprisionou nos cárceres de sua liberdade. Ao trazer o céu à terra, estraçalhou os símbolos que sustentavam sua existência, encerrando-os na mesma cova em que ele se encontrava. A partir disso, as formas clássicas de pensamento não puderam mais responder aos anseios íntimos de cada um e aqueles símbolos que se quebraram precisaram ser substituídos.

A irracionalidade, então, toma o trono celestial. Ela, agora a senhora dos céus, reina absoluta sobre um mundo que a adora. As formas de pensamento tradicionais já não mais respondem aos anseios, não porque não tenha respostas, mas porque o próprio ser humano não crê que elas existam.

O homem, que era integral, que se relacionava com o céu com todo o seu ser, abdicou daquilo que o torna mais semelhante a Deus, que é a sua racionalidade, encerrando a razão apenas ao cotidiano mecânico e utilitário. Para ela foram fechadas todas as portas da realidade superior, permitindo que neste plano ingressassem apenas a vontade e os sentidos.

Não é de se estranhar, portanto, que os filósofos modernos concluam que o homem nada seja e que o próprio Deus haja morrido. Se o andar superior é o reino do irracional, o que importa quem esteja lá? Dessa forma, são alçados para o céu qualquer fé, qualquer deus, qualquer espiritualidade. Se o místico é apenas um escape, não importa se há um objetivo, basta o salto.

A conseqüência final disso é a dúvida inclusive quanto à própria realidade. Ora, se o céu é o que eu coloco lá, como acreditar que haja um princípio inteligente? Deus, então, assume a forma segundo a vontade de cada um e se desfigura no desespero da humanidade.

O homem de agora está destituído de motivos, morto, perdido. Tornou-se um nada, um acaso. Se desfez em pedaços e talvez não se junte jamais!

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