Menos planos, mais princípios

Uma das maiores incoerências que vejo na análise dos candidatos à presidência é esse fetiche por planos de governo. Nem parece que o Brasil já sofreu o suficiente com os planos mais mirabolantes, que nos colocaram no quase caos que vivemos hoje. Os analistas, ainda assim, continuam exigindo que os candidatos tenham planos minuciosos a apresentar, como se tudo pudesse ser resolvido por meio de planilhas e números.

Isso não esconde que mesmo essa gente que reclama da centralização do governo federal e do excesso de Estado, no fundo, espera algum tipo de Salvador da pátria, que, se não resolverá os problemas por meio do milagre, o fará por meio de suas excelsas capacidades administrativas. Mostram que são, na verdade, estatistas enrustidos, entusiastas da planificação nacional, da mesma maneira que os mais ferrenhos comunistas.

De minha parte, entendo que um presidente não deve ter muitos planos de governo. Ele deve ter, sim, princípios claros. Eu, como alguém que realmente não acredita na eficiência estatal (diferente de muitos liberais que, apesar de declararem isso, ficam exigindo minúcias de planejamento dos potenciais presidentes, como se a ineficiência estatal fosse um problema de gestão e não de natureza), tenho convicção que a presidência mais eficiente é aquela que trabalhe para afastar a si mesma de qualquer administração técnica, lançando para os indivíduos e para os entes menores da federação as responsabilidades por implementar políticas públicas.

O problema é que isso parece impensável, inclusive para os analistas mais liberais que continuam acreditando que um bom candidato é aquele que apresente, em detalhes, tudo o que ele pretende impor sobre a cabeça dos cidadãos. O que eles querem, parece, é um novo Lenin, com seus planos quinquenais.

A relação dos homens com a autoridade secular

A noção de autoridade secular, segundo a Bíblia, é de algo que se deve respeitar e até obedecer, porém por tolerância, a fim de não ter-se por rebelde. A modernidade, porém, criou a ideia de autoridade que não apenas deve ser obedecida, mas servida, e de onde deve-se esperar as soluções para as questões mais comezinhas da vida cotidiana.

A forma como as pessoas, hoje em dia, se referem à autoridade, esperando dela tudo e até criticando-a quando ela não vem acudi-las da maneira que esperam, é uma completa inversão de como o cristianismo ensina que deve ser a relação do homem com os poderes terrenos.

E tal atitude apenas cria, nesses que aguardam tudo dos governos, uma incapacidade de resolverem suas próprias vidas, de buscarem suas próprias soluções, de assumirem a responsabilidade total por aquilo que fazem e por aquilo que conquistam.

O cidadão moderno não sabe defender-se, não sabe prevenir-se, não sabe sequer preparar-se para o futuro. Tudo ele espera que lhe seja dado pelas autoridades e, quando elas não agem de acordo com suas expectativas, o que é a regra, aliás, então usam de sua maior força: o direito de reclamar.