“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18). Mas como essa ira se manifesta? Por meio de raios, trovões e terremotos, como visualiza o imaginário popular, ou por uma forma diferente do esperado?
A mentalidade cristã foi moldada pelo medo do castigo divino, e a própria moral ocidental foi delineada por esse temor. Isso não surgiu do nada: a Bíblia está repleta de relatos sobre Deus punindo a humanidade com pragas, dilúvios e abismos. O cristianismo, de fato, desenvolveu-se muitas vezes mais sobre o terror do que sobre o amor; o castigo tende a mover mais do que as bênçãos. Esperar que Deus aja com violência quando irado é, portanto, uma atitude óbvia nesse contexto.
No entanto, além da intervenção direta, as Escrituras apresentam a ira de Deus manifestando-se de uma maneira sutil, quase invisível.
No mesmo capítulo da epístola aos Romanos, a Bíblia mostra que a ira divina não se dá necessariamente por uma ação específica, mas pelo afastamento. O texto afirma que Deus “entregou” os homens à imundícia, a paixões infames e a uma disposição mental reprovável.
Essa forma de manifestação, embora pareça mais amena à primeira vista, é muito mais terrível do que qualquer ato de violência física. Isso porque o cristianismo ensina que o ser humano, portador do pecado original, possui uma tendência intrínseca à perversão. Sendo assim, não há nada mais apavorante para esse indivíduo do que ser abandonado a si mesmo. O pior cenário é ficar por conta própria, sujeito à própria natureza e “escravo do pecado”. Portanto, Deus “entregar” os homens e virar as costas para eles é o ápice do rigor divino. A ira se manifesta pelo desprezo. Aliás, essa é a própria definição de inferno: um lugar privado da presença de Deus, sem qualquer possibilidade de redenção.
Na Bíblia, a violência corretiva geralmente está relacionada ao cuidado: “Deus corrige a quem ama”. Já verdadeira punição não está no golpe, mas no silêncio e no abandono.