Em meu livro sobre o marxismo, defini o pensamento de Karl Marx como “a filosofia que mudou o mundo”. A classificação gerou críticas, pois chamar o marxismo de ‘filosofia’ soa, para muitos, como heresia.
Minha escolha, porém, levou em consideração a intenção do seu autor, não a qualidade da sua obra. Afinal, Marx era doutor em filosofia e via sua produção como um trabalho filosófico.
Fiz isso porque entendi que o marxismo só poderia ser devidamente compreendido se eu visitasse suas fontes e o olhasse pelas lentes dos próprios marxistas.
Aprendi, assim, que, na ótica deles, o marxismo não é uma entre tantas filosofias, mas a filosofia propriamente dita. Para o marxista, fazer filosofia é pensar na maneira do marxismo.
Tanto que a filosofia como exercício de entendimento, como faziam os gregos, é insuficiente para o pensador marxista. Para ele, o papel da filosofia não é investigar as causas, como propôs Aristóteles, mas ser fundamento para a ação transformadora.
O próprio Marx dizia que “até aqui, os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo”.
Mas não se engane: essa ruptura com a tradição clássica é estratégica. O foco da filosofia marxista é a ação que ela desencadeia e, por isso, precisa estar pronta, ser estável e definitiva.
Se o filósofo marxista investigasse as razões das coisas com o rigor grego, teria de admitir a incerteza, e isso colocaria em risco os próprios preceitos socialistas. Como, porém, o objetivo da filosofia marxista não é desvendar a realidade, mas revelá-la, ela abdica da especulação e da análise profunda da natureza para oferecer uma visão de mundo que sustente a militância.
Por isso, seu método é mais pedagógico do que científico; sua forma é mais de um manual do que de um tratado; sua natureza é mais doutrinária do que filosófica.
Chamar, portanto, o marxismo de filosofia só se justifica para explicá-lo como um pensamento fundamental e orientador do movimento a que ele deu causa, não por suas características intrínsecas.