No texto ‘Desejo Natural pelo Conhecimento’, apresentei a tese, exposta no início da Metafísica de Aristóteles, de que o desejo pelo saber é intrínseco à natureza humana.
Mas como se dá a construção desse conhecimento? O próprio Aristóteles vai nos ensinar sobre isso e nos revelar o papel crucial que a memória exerce nesse processo.
Ele observa que alguns animais desenvolvem a faculdade da memória, enquanto outros não. Aqueles que a desenvolvem mais são mais inteligentes e capazes de aprender.
Contudo, há uma distinção profunda entre a lembrança animal e a experiência humana. Para o Estagirita, os animais vivem baseados em impressões. Suas memórias são como fotografias avulsas ou microfilmes fragmentados; imagens fixas e isoladas que não formam uma sequência. O animal faz apenas associações elementares: se um cão apanhou de alguém com um cabo de vassoura, ele foge ao ver o objeto na mão de alguém novamente. É uma reação direta: imagem presente face imagem registrada.
O ser humano, porém, opera em outro patamar. Nossa memória não é um arquivo de fotos soltas, mas um filme contínuo. Registramos experiências em contextos, percebendo relações e circunstâncias em uma linha do tempo ininterrupta, o que nos permite manejar a memória de diversas maneiras.
Uma delas é identificando padrões. Como ensina Aristóteles, as numerosas lembranças de eventos semelhantes acabam por produzir o efeito de uma única experiência. Nós percebemos causas e efeitos semelhantes e, a partir de muitas noções particulares, formamos um juízo universal.
A isso, Aristóteles chama de Arte (Techné). Se percebo que um chá acalmou meu estômago em diferentes ocasiões, crio um modelo para o futuro. O conhecimento nasce dessa síntese reflexiva.
O fato é que a nossa inteligência se desenvolve pela reflexão sobre o que vivemos. E se algumas pessoas parecem estagnadas é porque são incapazes de analisar suas próprias lembranças. Sem crítica ou análise, não criam modelos de comportamento e ficam condenadas a repetir os mesmos erros.
A verdade é que nossa evolução cognitiva depende de como relacionamos nossas memórias para formar nossa “arte”. A inteligência, em última análise, floresce no solo das nossas lembranças.