Quando São Tomás de Aquino afirma, em sua Suma Teológica, que “foi necessário que o homem, para sua salvação, conhecesse por revelação divina o que não podia alcançar por sua exclusiva razão humana”, a impressão imediata é a de que ele estaria rebaixando a capacidade da razão de compreender as verdades superiores.
Fosse esse o caso, o Aquinate estaria oferecendo uma visão semelhante à do gnosticismo: uma perspectiva dualista, como se houvesse um conhecimento inferior, mundano e imanente, acessível à razão, e outro, superior e transcendente, vedado a ela.
No entanto, não é este o seu propósito. São Tomás argumenta que a razão, pela forma como estrutura o seu saber, não tem condições de apreender, sozinha, as realidades superiores. Isso ocorre porque, como ensina a tradição aristotélica, todo conhecimento humano tem origem na experiência sensível. Através dos órgãos dos sentidos, os dados são captados, gravados na memória, processados pela imaginação e, finalmente, transformados em intelecção.
Como conhecer, então, as verdades transcendentes se elas não se originam na experiência sensível direta? Tal busca assemelha-se à procura por alguém de quem se sabe apenas o nome, mas não a fisionomia ou o paradeiro. Pode-se tentar encontrá-lo, mas será uma empreitada trabalhosa, errática e com parcas chances de êxito.
Por isso, São Tomás insiste que, “apenas com a razão humana, a verdade de Deus seria conhecida por poucos, depois de muito tempo e com a mistura de muitos erros”. Ele ecoa o que a Bíblia já afirmava: que, mediante a razão natural, os homens apenas “tateiam” as verdades transcendentes (Atos 17:27).
Portanto, a questão proposta por São Tomás não é ontológica, mas epistemológica. Não se trata de uma incapacidade intrínseca da razão, mas de como ela processa o conhecimento. O problema não reside em uma falha da faculdade racional, mas na insuficiência dos dados da realidade imediata para conduzi-la ao divino. São Tomás não rebaixa a razão; ele simplesmente demonstra que, por sua dependência dos dados sensoriais, ela não pode alcançar a Deus por si mesma, necessitando do auxílio da revelação.