O mundo ocidental cristão orgulha-se de sua pujança capitalista. Aqui, o mercado desenvolveu-se com muito mais liberdade do que em outras partes do globo.
Uma tese clássica que busca explicar essa simbiose entre religião e indústria é a de Max Weber, que afirmava ser a ética protestante um dos pilares centrais do espírito capitalista. Segundo Weber, o calvinismo — pautado na crença da predestinação, ou seja, na salvação restrita aos escolhidos — fez com que o sucesso material fosse interpretado como um sinal da graça divina. Assim, empreender e conquistar tornaram-se motivações centrais; o trabalho e a prosperidade tornaram-se as marcas dos eleitos.
No entanto, o economista Clarence Edwyn Ayres pensava o contrário. Em sua obra “The Theory of Economic Progress”, ele atribui o desenvolvimento da indústria justamente ao fraco domínio da religião sobre a sociedade. Ayres justifica sua tese pelo fato de a Europa Ocidental ser uma “fronteira da civilização mediterrânea”. Para ele, embora a Igreja tenha sido a ponta de lança da resistência institucional à mudança tecnológica, essa oposição foi ineficaz. O peso institucional do cristianismo era muito menor nos povos ocidentais do que o do Islã entre os árabes, do hinduísmo na Índia ou do confucionismo na China.
Sendo a civilização ocidental a mais jovem e menos rígida da época, ela estava menos “reprimida pelas acumulações seculares de poeira institucional”, tornando-se mais suscetível à inovação. Disso nasceu a Revolução Industrial.
Conclui-se, pela tese de Ayres, que a religião cristã ocidental não teve força factual para conter o impulso capitalista, apesar de seus preceitos formais contra o lucro e a usura.
Se aceitarmos, então, a visão de Ayres, o desafio atual para os religiosos é harmonizar o liberalismo industrial com a ética cristã, sem enfraquecer o desenvolvimento nem violar os princípios da fé. O objetivo seria manter uma sociedade próspera sem perder o fervor religioso. Mas será que isso é realmente possível?
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