Nossas preocupações não são únicas na história; os debates que travamos não são necessariamente uma novidade. Muito antes do nascimento do mundo moderno, já havia pensadores tratando dos mesmos temas e comportando-se da mesma maneira que nos acostumamos a ver em nossos dias.
Esse é o caso, especialmente, dos pensadores pré-socráticos, que, desde seiscentos anos antes de Cristo, propunham investigações e discussões que até hoje estão em pauta. Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Parmênides, Pitágoras, Empédocles, Anaxágoras, Demócrito e outros — considerados os primeiros cientistas e filósofos a surgirem no mundo — longe de serem pensadores primitivos com assuntos ultrapassados, como às vezes são retratados, já estavam, na verdade, abordando muitos dos problemas que debatemos atualmente.
Tanto é assim que encontraremos neles praticamente todos os temas e métodos que fazem parte do exercício filosófico de hoje em dia, como a investigação da natureza, a busca pelas leis subjacentes aos processos físicos, a explicação naturalista para as origens do cosmos e o uso do cálculo na previsão dos fenômenos naturais. Encontramos, inclusive, o surgimento de um materialismo e de um cientificismo que nos acostumamos a identificar como a própria forma moderna de pensar.
Além disso, vemos entre eles os mesmos tipos de atores intelectuais que testemunhamos hoje. Temos o pensador racionalista abstrato, o cético sem proposição, o cientificista materialista, o filósofo terapeuta, o intelectual charlatão, o líder esotérico, o mentor para a excelência, o orador motivacional, o persuasor sem conteúdo e até o instrutor remunerado — todos movimentando o ambiente cultural daquele período.
Vemos, portanto, que nos pensadores pré-socráticos encontra-se o germe daquilo que iria delinear toda a intelectualidade ocidental posterior. Por isso, é importante conhecê-los não apenas como curiosidade histórica, mas como o arquétipo da nossa própria mentalidade. Só assim, olhando para os antigos com o respeito que lhes cabe, seremos capazes de entender melhor a nós mesmos.