O que você sentirá ao envelhecer? A amargura pelo que se perdeu, a culpa pelo que foi desperdiçado ou a percepção de que, finalmente, é o momento de usufruir dos verdadeiros prazeres da vida.
Na juventude, vivemos para o prazer. Com energia de sobra, sentimos a urgência de consumi-la; do contrário, parece que a vida nos escapa. Para a maioria, “aproveitar a vida” resume-se a sensações corporais: sexo, comida, bebida e diversão — e, para os mais ousados, substâncias e riscos extremos.
O problema surge quando o repertório de felicidade de alguém se limita ao sensorial. Quando o corpo envelhece, a energia declina e os estímulos perdem a força, essa pessoa sente que a própria existência está se esvaindo. Quem só conhece o prazer dos sentidos, quando estes se apagam, encontra o vazio.
Como observa Céfalo no diálogo com Sócrates, n’A República de Platão: “Aflige-se na crença de que as coisas mais importantes lhe foram subtraídas”. Muitos se perdem na melancolia, lamentando a saudade dos deleites perdidos da juventude.
No entanto, a velhice não precisa ser um crepúsculo de privações. Ela pode ser um período de plenitude, desde que aprendamos a cultivar prazeres que transcendem o físico: intelectuais, espirituais, emocionais e relacionais.
Se desde cedo aprendemos a valorizar o que é perene, ao envelhecer, o declínio dos sentidos não é uma perda, mas uma libertação. Podemos nos deleitar na inteligência, no cultivo das amizades e no conhecimento. Nas palavras de Céfalo:
”À medida que os prazeres do corpo fenecem, na mesma medida aumentam meu desejo e prazer pela boa conversação.”
Essa mudança representa uma conquista de liberdade. Prazeres espirituais não possuem a tirania da urgência biológica. Céfalo cita Sófocles, que ao ser questionado se ainda mantinha vida sexual, respondeu ter escapado disso “como um escravo que escapasse de um senhor brutal e tirânico”.
A paz e a liberdade surgem quando as “tensões selvagens dos apetites” relaxam. O fardo da idade será moderado para quem cultiva a moderação e a jovialidade; para os demais, tanto a juventude quanto a velhice serão cargas pesadas demais para carregar.