A beleza e a alma corrompida

Algumas pessoas podem até dizer que a beleza é algo subjetivo, dependente do gosto e do desejo de cada indivíduo. Porém, não podem negar que há imagens que são tomadas como belas por todos. No mínimo, há alguma referência de beleza que permite que algo seja chamado de bonito e outro de feio. Ainda que se aceite que há graus de beleza, exatamente por isso deve-se aceitar também que existe uma Beleza transcendental, que serve como referência máxima de tudo o que pode ser chamado belo.

Em toda a história, as pessoas representaram o mal com o feio e o bem com o belo. Basta ver as pinturas que retratam seres demoníacos e as que retratam os angélicos. Jamais Cristo foi pintado como alguém feio, nem Belzebu com alguma beleza encantadora. Isso se dá menos por consciência da força simbólica da pintura do que pela expressão pictórica que tenta retratar o sentimento referente ao objeto pintado.

Há, portanto, nos homens, uma imanente relação com a beleza e com a feiúra que demonstra que é a beleza o que é agradável, bom, desejável e, por isso, o fim do ser. Sendo assim, pode-se dizer que a beleza é uma manifestação da própria divindade, enquanto a feiúra, seguindo a ideia agostiniana sobre o bem e o mal, seria a ausência ou, pelo menos, a diminuição dessa manifestação.

Diante disso, é evidente que a relação que as pessoas têm com manifestações de beleza e de feiúra possuem alguma influência sobre suas vidas. Obviamente, o que é bonito enleva, arrebata, encanta, acalma, pacifica. Por outro lado, o que é feio perturba, deprime, incomoda, repele. De qualquer maneira, ninguém é indiferente em relação a essas manifestações.

No entanto, essa relação não é consciente todo o tempo. Pelo contrário, na maioria das vezes ela se dá espontaneamente, exatamente por causa da imanência dessa percepção da transcedentalidade da Beleza, refletida, parcialmente, nas manifestações temporais.

Por isso, não há como negar que as imagens belas influenciam positivamente, elevando o homem a uma imago Dei. O que é belo transporta o homem para a percepção não apenas da existência de Deus, mas também de sua bondade e amor.

No entanto, quando o indivíduo não consegue mais identificar a diferença entre a beleza e a feiúra ou quando passa a denominar de belas coisas repugnantes, isso é sinal de que sua alma já está corrompida. Se a percepção natural remete à beleza como algo bom e a feiúra como algo mal, e, por outro lado, se a pessoa chegar a um estado de não conseguir mais diferenciar o belo e o feio, também não conseguirá diferenciar o bem e o mal, o bom e o ruim, o divino e o diabólico.

E a perda dessas referências se dá pelo hábito.

Uma pessoa acostumada a belas imagens, as terá como referência de beleza. Sendo assim, sua alma permanecerá inalterada em sua relação com o belo e o feio. Isso manterá seus referenciais imanentes vivos e, assim, será muito mais natural para ela compreender o que é o bem e o que é o mal, o certo e o errado. Para ela, aceitar que algumas coisas são invariavelmente ruins e devem ser evitadas será algo tão natural, que a tendência é que se torne uma pessoa realmente virtuosa.

Por outro lado, não basta ser exposto às imagens feias para, de alguma maneira, ter a alma corrompida. O problema ocorre quando essa exposição vem acompanhada da ideia de que essas mesmas imagens, que naturalmente são percebidas como feias, são belas ou, pelo menos, neutras. Isso faz com que, com o tempo, a pessoa exposta a essa constante, tenha sua percepção transformada, chegando ao ponto de não conseguir mais diferenciar o que é belo do que é feio ou perdendo a sensibilidade para identificá-los. Se não identifica mais a beleza, consequentemente terá dificuldades em identificar o certo e o errado.

Isso só não acontece plenamente, porque, diferente da beleza, o certo e o errado são passíveis de conceituação, dogmatização e identificação linguística. Assim, ainda que a pessoa tenha sofrido com a perda da percepção do belo, sua inteligência conhece os conceitos referentes ao que é certo e errado.

No entanto, isso causa um outro problema, que é o conflito entre a percepção e a inteligência. Enquanto a pessoa recebe a informação inteligível de que certas coisas são boas e outras são más, sua percepção não a ratifica, criando, no indivíduo, uma batalha de estímulos contraditórios.

Assim, a tendência é essa pessoa deixar-se conduzir pela percepção corrompida. Isso porque o que alimenta a alma, com o tempo, determina suas percepções. E a razão, quando não corroborada pela percepção, costuma sucumbir a ela.

Daí, quando olhamos para nossas cidades, com toda sua arquitetura utilitarista, sem preocupação estética, suas ruas sujas, seu crescimento desordenado e disforme; as favelas, com toda sua desordem e sujeira; quando somos expostos à exaltação do que é feio, feita por boa parte da mídia contemporânea; quando as próprias artes, querendo apenas chocar, apresentam um culto à feiúra constante; quando mesmo a moda, que sempre fora o bastião da beleza, começa a apresentar estilos que chocam e confundem, ao invés de enlevar, começamos a compreender porque estamos tão corrompidos.

Quando vemos nossas escolas públicas, com seu descaso estético, com suas paredes mal pintadas, seu chão engordurado, suas carteiras quebradas, seus muros pichados, seus uniformes sem graça, seus tetos com infiltração, seus jardins mal cuidados e suas lanchonetes sujas, sabemos que almas estamos forjando para o futuro.

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