Realização, sentido e inteligência

Existe frustração, mesmo em meio ao sucesso material, porque a verdadeira satisfação dificilmente reside nas conquistas em si mesmas, mas na convicção de que o que está sendo realizado realmente tem sentido.

Quando somos jovens o sucesso material tem mais importância, pois serve como autenticador de nossa posição social, fornecendo aquela segurança que todo jovem procura. Conforme vamos ficando mais velhos, porém, o significado começa a tomar seu lugar de primazia e a ser o fator determinante de nossa felicidade.

As conquistas materiais podem ser convenientes, úteis e até ajudar na busca de valores superiores. No entanto, elas passam e o que passa não pode ser chamado de duradouro. O significado, porém, sempre reside no duradouro.

E, com o tempo, percebemos que esse significado nunca reside nas conquistas materiais em si mesmas. Para alguns, pode até estar no status e conforto que elas proporcionam, mas, ainda assim, só de maneira muito frágil. O verdadeiro sentido apenas vai ser encontrado naquilo que nos transcende, naquilo que nos leva para além de nós mesmos. Está além do corpo, que sofre com a corrupção. Está, com efeito, na inteligência, no espírito.

Por isso, a perseguição do que é relativo à inteligência não é apenas uma expressão vocacional, um exercício do talento. Também não é mera atividade exercida como fruto do gosto. O que se refere à inteligência liga-se ao que permanece, ao que supera à matéria, aquilo que sobrevive à experiência terrena.

É por essa razão que a vida da inteligência tem mais sentido. Ela não está encarcerada no mundo presente, nem no tempo presente, mas ousa lançar-se à eternidade. E nada pode ter mais sentido do que algo que segue a eternidade.

Um desafio aos revolucionários

É muito fácil criticar a civilização com a bunda sentada sobre as conquistas que essa mesma civilização proporciona. É cômodo colocar-se como um opositor do capitalismo, manifestando-se pelos meios super eficientes que o capitalismo criou para isso.

O pior é que quem se coloca como crítico sempre aparece como se estivesse em uma posição superior, como um juiz do mundo moderno, assumindo uma postura de quem possui as soluções para os problemas que insiste em apontar.

E, cinicamente, se manifesta, aproveitando de todas as benesses que a sociedade oferece, com todo seu luxo, seu conforto e seus instrumentos.

Por outro lado, quem se mostra satisfeito com o que existe acaba sendo tachado de inimigo da humanidade, como alguém insensível, elitista e retrógrado

Porém, é certo que não cabe a quem defende a ordem social existente, ou seja, os conservadores, o ônus de provar que ela é boa.

O fato é que todos nós vivemos sob essa ordem e, bem ou mal, é ela que tem nos sustentado. É nela que nos manifestamos, nela que progredimos, nela que construímos nossa vida. E nada disso seria possível se ela não nos oferecesse nenhum recurso que nos possibilitasse tudo isso.

Por isso, antes de tecer críticas à civilização na qual vivemos, é preciso reconhecer que ela nos tem permitido viver. Antes de achar que tudo deve ser colocado abaixo, é preciso identificar o muito que deu certo e está à nossa disposição.

Portanto, se alguém deseja substituir a civilização existente, antes de tudo, precisa mostrar, com argumentos racionais e elementos palpáveis, e não com quimeras, as razões por que ela não serve e como tudo poderia ser melhor. No entanto, isso, essas mentes revolucionárias jamais conseguem fazer.

A impopularidade do liberalismo econômico

O discurso do liberalismo econômico não possui nenhuma chance de tornar-se popular. E como ser popular se o que ele propõe vai contra os anseios imediatos e necessidades prementes das pessoas?

Até porque, de fato, o liberalismo não promete nada de concreto, a não ser o uso livre da faculdade que cada um possui de buscar seus objetivos, com o mínimo de intervenção governamental. E como alguém pode afeiçoar-se a um discurso desse tipo?

É muito mais fácil, e até mesmo intuitivo, sentir-se atraído por promessas de ganhos imediatos, de direitos adquiridos e de proteção estatal. Faz parte até de um certo instinto de sobrevivência buscar a tutela de quem lhe parece mais forte e capaz de lhe dar guarida.

Entender que o que é dado com facilidade hoje cobra seu preço amanhã requer já uma certa capacidade de compreensão que não está imediatamente disponível a qualquer um. Saber que sacrifícios são necessários para conquistas posteriores é uma verdade que naturalmente as pessoas tentam evitar e quem a apresenta costuma ser mal visto.

Mais ainda, entre a oferta do sustento imediato e a mera possibilidade de um ganho futuro, quase todo mundo acaba decidindo por aquela, sem pestanejar.

O fato é que para entender e apoiar a ideia liberal é preciso um grau um tanto mais avançado de cultura, um pensamento desenvolvido ao ponto de vislumbrar a realidade em uma perspectiva mais ampla, que não considera apenas o presente, mas principalmente as implicações das escolhas de agora no futuro.

É por isso que o liberalismo sempre vai ser defendido por um grupo pequeno de pessoas e terá sempre essa aparência elitista. É por isso também que priorizar o discurso liberal para vencer eleições, principalmente em um país com deficiências culturais graves, é jogar para perder.

Economicamente, é bem provável que um liberalismo amplo e radical seja a solução para o Brasil, porém, politicamente, se ele não vier acompanhado de propostas que sejam mais populares e o sustentem, como a defesa da família e o direito ao porte de armas, estará condenado a ser apenas uma boa ideia, porém sem apelo.

Lamento, apenas, que muitos liberais não percebam isso.

A natureza espiritual maligna do marxismo

O marxismo é, de diversas maneiras, uma usurpação e uma paródia mal feita tanto da religião cristã, como da própria civilização ocidental. O que ele fez foi tomar tudo o que nosso mundo criou e desenvolveu e reter com ele, como se ele, o marxismo, fosse o possuidor legítimo de suas qualidades.

Foi dessa maneira que ele se apropriou da linguagem cristã, de sua moral e também de seu caráter salvífico, tentando substituir o cristianismo como solução viável para as necessidades e expectativas do ser humano. E tomou para si ainda o que a própria Europa ofereceu ao mundo, arrogando-se de herdeiro de suas conquistas. Tanto que, nas palavras de Lenin, “o marxismo é o sucessor natural da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês”.

Formou-se assim, respectivamente, o espírito, a alma e o corpo dessa entidade maligna que surgiu para enganar o mundo com sua promessa de redenção.

Quem acha que o marxismo é apenas uma ideia, engana-se redondamente. É bem mais que isso. Ele é uma manifestação espiritual, um produto dos tempos, um filhote de um cristianismo cansado e desiludido.

Por isso, atacá-lo apenas politicamente é tão inócuo como querer derrotar um demônio a vassouradas.

O espírito marxista precisa ser encarado em várias frentes, como ideia e como força política, mas também como poder invisível e sutil, o qual se vence com palavras e força, mas também com inteligência, jejum e oração.

A extinção dos antigos formadores de opinião

Cada vez menos os emitidores de opiniões presentes na grande mídia têm influência sobre o restante da sociedade.

Ouvi-los falando sobre os mais diversos assuntos, sobre os quais, na maioria das vezes, não entendem nada, é quase como que assistir suas peças de ficção: é uma mera experiência de observação, que não levamos em conta para além das portas do teatro.

De alguma maneira, na internet as pessoas encontraram aqueles que possuem uma visão de vida semelhante a delas e puderam com isso se libertar do palavrório falso e irritante daqueles que, até aqui, tinham o monopólio do discurso.

Hoje, esses pretensos intelectuais formadores de opinião estão se transformando em uma espécie exótica, que pode até servir para divertir as pessoas, mas, cada vez menos, o que dizem pode ser levado em conta seriamente.

E o mais interessante disso tudo é que, como animais que percebem o perigo que ronda a sua espécie ficam, a cada dia, mais ariscos, mais propensos a se afastar do perigo que representa a civilização verdadeira, fechando-se em seus bandos, alimentado-se e protegendo-se mutuamente, lutando desesperadamente contra sua própria extinção.

Deixemos, portanto, que vivam de suas próprias migalhas, mas não joguemos comida aos animais, nem permitamos que usem do dinheiro que arrecadam de nós para sustentá-los.

Revolta contra Deus

Quase toda a revolta contra Deus não passa de uma birra juvenil.

Da mesma maneira que o adolescente enxerga nos pais o reflexo de sua própria impossibilidade, pois eles são, ao mesmo tempo, seu limite e seu freio, o revoltado vê em Deus sua própria insignificância e pequeneza, o que para seu ego inseguro lhe é insuportável.

Quase todo ateísmo não é mais do que uma expressão obsessiva por mostrar-se independente, tentando deixar claro para todo mundo que não vive sob as asas da autoridade divina.

É um esforço infantil por apresentar-se como dono de si mesmo, como senhor de seu próprio destino, como alguém que não precisa dar contas a ninguém.

Sempre quando vejo um ateu, lembro-me de minha adolescência, quando ameaçava meus pais de que iria sair de casa, arrumando minha mochila velha e enchendo-a com minhas tralhas inúteis.

No fundo, eu sabia que, por mais que eu os ameaçasse, por mais que eu reclamasse de sua suposta opressão, por mais que eu dissesse que queria minha liberdade e viver minha própria vida, lá no fundo eu sabia que dependia deles para tudo e que toda minha demonstração de rebeldia era apenas uma forma de sentir-me senhor de mim mesmo. Restava, então, se trancar no quarto e praguejar.

Os ateus militantes que me desculpem, mas eu não consigo olhar para eles e deixar de ver apenas crianças rabugentas, que batem os pés, que choram, só porque não podem fazer todas as besteiras que têm vontade.

Militância teológica

Um dos motivos do meu afastamento dos debates doutrinais-teológicos (e mesmo das conversas sobre teologia) foi minha percepção da insensibilidade generalizada em relação às nuances teóricas dos temas religiosos, que é quase a regra nesse tipo de situação.

Minha paciência esgotou-se ao ver tantas pessoas inteligentes se arrogando no direito de discutir assuntos tão sérios, como os teológicos, posicionando-se como meros militantes políticos, dispostos a tudo para vencer o debate, impassíveis em suas posições e incapazes de analisar os argumentos opostos dentro da perspectiva dos próprios opositores, o que seria um pressuposto óbvio da atuação inteligente em qualquer discussão.

O pior é vê-los, diante de diferenças sutilíssimas de interpretação, tratarem as ideias adversárias como absurdas, estapafúrdias. Agem, diante do detalhe, como se estivessem defronte o pensamento mais extravagante.

Os debates entre calvinistas e arminianos são o exemplo exato disso. Mas essa realidade pode ser estendida às conversas entre os cristãos de qualquer vertente.

É impressionante como ideias tão próximas, tão congêneres, podem ser tratadas como se fossem pólos diametralmente opostos e seus defensores acusarem-se mutuamente de exporem absurdidades.

A verdade é que um sinal claro de inteligência é a capacidade de percepção e separação, de um lado, das ideias que são absurdas, que se manifestam como um verdadeiro nonsense, e de outro, daquelas que, apesar de constarem no repertório adversário, possuem uma coerência interna que, no mínimo, deveria merecer respeito.

E o fato é que a grande maioria dessas teses teológicas são deste último tipo, dificilmente podendo ser consideradas absurdas em si mesmas. Todas elas, de alguma maneira, encontram sua razão em algum fundamento reconhecível, seja no texto, seja na lógica, seja no bom senso, seja na história.

Portanto, não perceber isso e tratar tudo o que não está de acordo com as próprias convicções como estupidez (que é o que boa parte dos debatedores teológicos fazem), é sinal claro de fanatismo comum à arena política, além de ser uma demonstração evidente de obtusidade.

Não há relação intelectual sadia com quem age dessa maneira. Pior ainda, essa atitude impede o próprio desenvolvimento da inteligência, pois a desconsideração do argumento adversário, principalmente pela incapacidade de reconhecer nele sua lógica própria, ainda que não concordando com ela, é praticamente a própria definição de ignorância.

Autismo intelectual

Boa parte das pessoas com quem tenho contato argumenta muito mal. No entanto, percebo que o maior problema delas não está na forma como concatenam suas ideias, mas argumentam mal porque ouvem muito mal.

Apesar de identificar não ser incomum que muitos desses argumentadores possuam deficiências cognitivas sérias, ainda percebo que o maior problema que carregam é um severo autismo intelectual.

E com autismo intelectual quero dizer de uma tendência a, mesmo quando participantes de debates e discussões, onde pressupõe-se que todos os envolvidos devem ser considerados em suas exposições, fechar-se dentro de sua própria cabeça, revolvendo-se unicamente em seus próprios raciocínios, ignorando completamente as razões do que é dito pelos outros.

E como é típico do autismo, o que os outros expressam não é compreendido em toda sua força argumentativa e lógica, mas apenas em sua expressão mais superficial, causando, no autista intelectual, uma reação que nada tem a ver com o objeto da disputa, mas apenas com o mundo interno que o acompanha.

Por isso, acredito que para o desenvolvimento de uma mente sadia e de uma inteligência capaz de participar ativa, coerente e eficazmente de debates intelectuais, antes de qualquer treinamento argumentativo, filosófico ou cultural, a pessoa deve aprender a ouvir.

Saber ouvir significa ter a atenção despertada para o que acontece ao redor, para o que existe para além de si mesmo, para o que os outros dizem e para os eventos que estão fora de seu mundo interior. Saber ouvir é o princípio de qualquer atividade intelectual porque só assim é possível alimentar a mente para futuro uso do material absorvido.

E para aqueles que se envolvem em discussões, saber ouvir é o primeiro passo para bem argumentar. Afinal, em um debate, não existem bons argumentos se não aqueles que atacam o problema em seu âmago e que abordam exatamente aquilo que o outro está tratando. Sem isso, há apenas uma taramelagem enfadonha, que geralmente só tem sentido e importância para o tagarela que está falando.

Utopia liberal

A utopia não se manifesta apenas naquelas ideologias que imaginam um mundo futuro perfeito, mas inalcançável. Ela também é bem evidente no pensamento daqueles grupos que acreditam que as soluções de qualquer situação social ou política, mesmo para hoje, vêm da adoção, pura e simples, de uma ideia.

E não é isto que boa parte dos liberais fazem quando se trata das privatizações e da liberação do mercado?

Não que eles estejam errados quanto ao viés de liberalização e desestatização da economia. Pelo contrário, me parece que esse é mesmo o caminho a ser perseguido. Porém, quando eles acreditam, como muitos parecem acreditar, que a mera liberalização de tudo é suficiente para fazer as coisas funcionarem, me soa tratar-se da boa e velha utopia.

Basta observar com que arrogância e desprezo tratam qualquer um que meramente insinue que deve haver algum direcionamento legal na economia ou algum cuidado na privatização de empresas estatais para perceber o quanto esses liberais têm suas ideias como realmente a solução infalível para todos os males (o que vai de encontro com um sério princípio conservador e não difere em nada de qualquer proposta ideológica).

Esses liberais condenariam até Hayek, que escreveu que “essa ênfase na natureza espontânea da ordem ampliada ou macro-ordem pode ser enganosa se passar a impressão que, nela, a organização deliberada nunca é importante”. Leia-se ordem ampliada como a sociedade de mercado e organização deliberada como leis que direcionem esse mercado.

Acredito que os liberais estão certíssimos ao lutarem por menos Estado e menos regulamentos. Porém, também acredito que pecam quando fazem isso crendo que a solução que propõem é óbvia e natural, dando seus resultados como se estivéssemos lidando com um problema matemático e não com a complexidade típica das relações sociais e humanas.

Abstratismo epidêmico

Parece até um contrassenso, mas quanto mais as pessoas possuem deficiências cognitivas mais elas tendem a se abrigar sob as asas do pensamento abstrato.

Quase sempre, quando eu peço para meus novos alunos exporem alguma ideia, logo eles veem como uma miscelânea de frases prontas, slogans e expressões de efeito que, na primeira análise um pouco mais acurada, percebe-se que não querem dizer coisa alguma.

Chego a considerar que o abstratismo já é uma grande epidemia cognitiva, que afeta a maior parte das pessoas. E isso porque ele é como que um refúgio, onde elas se escondem para não ter de pensar as coisas como realmente as coisas são.

Afinal, é muito mais fácil falar sobre ideias que pairam nas nuvens e não podem ser colocadas à prova, do que se comprometer expondo algum pensamento que possa ser visualizado materialmente e, por isso, sujeito a todo tipo de análise e crítica.

É bem mais tranquilo lançar expressões como, por exemplo, “liberdade acima de tudo”, “alcance seu sucesso”, “todos são iguais” e “o importante é ser feliz” do que demonstrar, com argumentos e exemplos, como essas coisas se dão de fato.

Quando eu insisto e peço para materializarem o que dizem, invariavelmente percebem que nenhuma dessas expressões, nem qualquer outra ideia abstrata, é tão absoluta quanto parecia quando foram ditas dessa maneira desapegada da realidade concreta.

Por isso, se você quer ficar mais inteligente, force-se a sempre visualizar a concretude daquilo que está saindo da sua boca. Pergunte-se sempre como aquilo acontece na vida real e como se materializa. Questione-se se o que você está pensando é aplicável na realidade e se funciona de verdade. Desça do céu abstrato e coloque à prova suas ideias, deixando-as surgirem como corpos reais, sujeitos, por serem visíveis, a todo tipo de ataque.

Depois disso, fique apenas com aquelas que permanecerem intactas, deixando para trás as que se mostrarem fragilizadas e enfraquecidas. Pois, se você insistir em carregá-las, serão um peso morto insuportável, que servirá apenas para transformar sua caminhada em uma verdadeira ‘via crucis’ intelectual.