A caridade e a vocação do escritor

“Nunca confunda a vocação de escritor com falta de caridade” – palavras da minha leitora Mônica Camatti.

A possibilidade de ferir sentimentos alheios nunca pode ser uma preocupação fundamental na atividade intelectual, pois é da natureza da crítica (e o trabalho intelectual é essencialmente crítico) tocar em feridas que doem.

Por isso, o escritor que se autocensura demais, com a preocupação de não magoar os outros, está limitando seu trabalho imensamente.

O que, de fato, deve balizar sua expressão é a verdade, a relevância, a utilidade e o bom-senso.

Eventuais ressentimentos devem ser considerados como efeito inescapável dessa atividade e, apesar de não dever constituir o fim dela, nem fonte de prazer para o escritor, não pode servir como limitador de seu trabalho.

Portanto, se, quando eu escrevo algo, afeto suscetibilidades, desculpe-me, essa nunca é minha intenção e nem me alegro com o fato.

O único problema é que deixar de escrever não é, no meu caso, uma opção.

A chegada da maturidade para quem produz alguma obra intelectual

Existe um momento na vida do artista, do intelectual e do escritor que pode ser considerado o limiar da maturidade e a despedida da meninice. Talvez não seja bem um instante, mas o resultado de um progresso que, em algum momento, se torna evidente para ele. É quando ele começa a ansiar pela crítica, quando deseja que seu trabalho seja honestamente avaliado, quando sente que a autocrítica já não é mais suficiente para a excelência de sua obra; percebe, assim, que o garoto ficou para trás.

Em minha juventude tive diversas atitudes arrogantes. Muitas vezes rechacei avaliações negativas sobre o que fazia e até fechei meus ouvidos para conselhos sinceros para melhorar este ou aquele aspecto de minha atividade. Cheguei ao absurdo de negar a ajuda de um profissional muito mais experiente, apenas por acreditar que eu estava mais certo do que ele.

Os jovens, muitas vezes, em sua necessidade de autoafirmação, em sua pressa de reconhecimento, atravessam a via expressa do mundo cultural apressadamente, sem olhar para os lados, sem medir as consequências. O resultado, invariavelmente, é que são atropelados pela realidade.

Ainda assim, é comum permanecerem herméticos quanto à avaliação da qualidade do que fazem. Fecham-se em uma auto-lisonja, na admiração cega à própria produção, considerando toda crítica a sua obra como injustiça e incompreensão de seu gênio.

Mas se tal atitude fosse exclusiva dos moços, até seria compreensível. O problema é que muitos ultrapassam a linha do mundo adulto carregando o mesmo tipo de comportamento. Permanecem, como nos tempos de meninice, abraçando tudo o que fazem como se fossem indiscutíveis trabalhos frutos de uma mente privilegiada, compreensível apenas para cabeças capazes de entender a profundidade de sua expressão.

Para quem glorifica sua própria obra, toda crítica é um dardo flamejante lançado com o intuito de consumir seu trabalho. Evitá-la, portanto, é uma necessária expressão de defesa. Por isso, quem ainda vive na infantilidade artística sofre, na tentativa de preservar o valor de seu trabalho, isolando-o da avaliação externa, ficando aberto apenas para os elogios e as manifestações lisonjeiras.

Quando se alcança a maturidade, porém, aparece o que antes parecia impensável: a necessidade da crítica. Apenas o homem crescido, preocupado essencialmente com o real valor do que faz, sabe que não possui todas as possibilidades, em si mesmo, de fazer algo excelente; que é inteligente ouvir o juízo alheio, que sempre traz luzes novas ao que pode ser melhorado; que a obra intelectual não é feita apenas de originalidade, mas há muito de informação, inclusive de mimetismo e de absorção do que já fora empreendido por outras mentes.

A pessoa que definitivamente cresce, já não se protege, como um paranoico, mas se abre, desejoso por saber o que aqueles mais experientes, mais conhecedores e mais capacitados pensam sobre o que ele faz. E este é o marco divisório entre a infância e a maturidade intelectual.

Calados pela diversidade

A diversidade é uma santa imaculada, louvada, venerada por todos os adeptos da “igreja do pensamento que não desagrada ninguém”. Segunda a doutrina dessa comunidade amorfa, inócua e desinteressante, toda manifestação cultural deve ser valorizada, nenhuma cultura pode ser considerada superior e, principalmente, toda cultura deve ser respeitada, ainda que sua prática seja absurda ao observador.

Segundo esse pensamento, culturas como as das comunidades indígenas, por exemplo, que enterram crianças vivas, simplesmente porque não nascem fisicamente perfeitas, ficam, segundo a ideologia da diversidade, automaticamente isentas de crítica. Não importa que tais práticas sejam uma afronta ao bom senso e a uma mínima noção de humanidade; não cabe falar nada contra elas.

Além do sufoco infantil, o sufoco da opinião. O respeito à diversidade é alçado, então, ao estatuto de lei universal, inviolável. Como diante de uma regra imutável, enxergar o diverso como algo tolerável deixa de ser uma questão de opção e valores e passa a ser mandamento. Ter o diferente como mal, inferior, prejudicial não apenas é visto como um ato de intolerância, mas começa a tornar-se um crime contra a humanidade. Se não gosta, cale-se e veja o diverso divertir-se às custas de seu silêncio forçado.

A diversidade assume então o status de valor em si. Falar algo depreciativo do outro torna-se blasfêmia sujeita à reprovação e excomunhão praticada pelos asseclas vociferantes dessa entidade, dessa deusa, que tem recebido cada vez mais louvores e oferendas. Criticar o diferente é pecado, e mortal.

Mas quem são os diferentes protegidos? Na verdade, são aqueles escolhidos segundo o interesse da ideologia. A matança infantil indígena é diferente, a feitiçaria africana é diferente, a poligamia e pedofilia islâmicas também são diferentes e, por isso, falar algo contra essas chamadas “manifestações culturais” é crime.

Mas veja que, quando a diversidade, por si mesma, passa a ser inviolável, não apenas a cultura estrangeira é cercada com muros inexpugnáveis, mas as próprias manifestações internas, em sua infinita diversidade, ainda que se choquem com os padrões construídos dentro da própria cultura. Assim, qualquer atitude humana, mesmo que seja uma afronta ao bom senso, às tradições e à própria percepção de natureza de um povo, fica colocada fora do campo da crítica, permanecendo guardada das palavras contrárias.

O que é isso senão a imposição de uma mordaça absoluta? E o que é isso senão o próprio fim da civilização como a conhecemos? E o que é isso senão o fim da religião mesma? Ora, toda a construção civilizacional e religiosa fora erguida sobre a crítica, a dialética e a dissonância. Sem isso, nada se teria feito. Se desde sempre os homens não pudessem expor suas visões discordantes, viveríamos ainda nas cavernas.

Mas não pense que o politicamente correto é tão universal assim. Se, por um lado, ele prega que todas as culturas devem ser respeitadas e todas as opiniões ouvidas, ao mesmo tempo, escolheu algumas entre elas que estão fora de seu cerco de proteção e sobre as quais, diferente de todo o resto, toda a crítica é muito bem vinda. O cristianismo, o capitalismo, a tradição e a moral, se tudo está protegido pela couraça do politicamente correto, estas manifestações citadas e seus correlatos: o homem branco, a heterossexualidade, a família e os valores espirituais se encontram fora dessa rede de proteção. Nada pode ser mal, exceto estas formas de cultura. Um índio pode matar uma criança, mas um cristão não pode dizer que o homossexualismo é um erro. Um africano pode fazer feitiços contra qualquer um, mas um crente não pode orar pedindo bênçãos para Deus. Um homossexual pode invadir um culto de uma igreja evangélica, lugar privado, e afrontar as crenças dela se agarrando diante de todos, mas um pregador não pode, em praça pública, afirmar que um gay está em pecado. Uma mulher pode reclamar pelo direito de matar fetos, mas ninguém pode mandá-las calarem suas bocas. Os brancos precisam arcar com os custos de uma escravatura secular, enquanto os negros não pagam nada pela escravatura empreendida por eles mesmos. O capitalista pode ser demonizado como avarento e explorador, enquanto líderes socialistas, ainda que usufruindo de vidas nababescas, obtidas por meio da exploração de povos inteiros, são tidos por heróis.

Há dezenas de outros exemplos que poderiam ser citados, mas esses bastam para mostrar que se o politicamente correto impõe o “cale-se” a quase todos, ficam de fora exatamente aqueles que livremente podem criticar os calados. E se um dia esses calados desaparecessem, a utopia seria alcançada: um mundo onde ninguém critica ninguém, onde nada é discutido, onde nada é melhorado. Como na música do John Lennon, uma mundo sem religião onde todos vivem como um só. Um lugar eternamente inerte. Na verdade, uma exata descrição do Inferno.