A certeza dos relativistas

Há uma confusão que reside na mente de alguns iluminados que se consideram exemplos de fé inabalável: entender o vacilo do outro como relativismo. Insensibilizados pela própria arrogância e confundidos pela própria ignorância, acusam quem mostra algum tipo de hesitação, tipicamente humana, de serem propagadores de relativismo. No entanto, relativismo não se confunde com dúvidas ou vacilos de fé. Enquanto estes se manifestam por situações relativas à experiência, como algum tipo de frustração ou pessimismo, o relativismo caracteriza-se por uma certeza intelectual: a de que tudo é relativo. Continuar lendo

O direito da religião à intolerância

Homem_pregando.jpgA tolerância é o fim de qualquer concepção religiosa. Quando a religião perde o direito de acusar as outras, de ver-se como a única resposta viável para existência, deixa de ser religião e passa a ser filosofia. Por isso, quem pretende manter seu direito a ser religioso, a seguir uma fé, a acreditar que o que sua doutrina ensina é verdade absoluta, não pode aceitar a imposição que se tenta colocar sobre a religião. Esta só permanece sendo o que é se preservar seu direito à intolerância.

É que, de fato, tolerar é um ato bastante superficial. Significa, simplesmente, permitir, ainda que contrariado, que aquele que pensa diferente subsista. A tolerância não é um ato de amor, nem de concordância, nem de apoio. É apenas uma atitude de indulgência, perante algo que preferiria não existisse, mas que não se pode impedir. Na verdade, a tolerância é a declaração do erro alheio, acompanhada da complacência em relação a sua existência. Ou seja, ser tolerante não tem nada daquela atitude magnânima que muitas pessoas imaginam. Pelo contrário, é uma declaração de fé, junto a uma acusação de erro, junto a uma atitude de condescendência. Continuar lendo

A vantagem do relativista no debate

Quem já teve a infeliz experiência de discutir com alguém que defende qualquer uma dessas ideologias relativistas que existem no mercado das ideias, é bem provável que, ao final do debate (se é que houve final, pois a discussão com essa gente nunca acaba), tenha tido aquele sensação de frustração, típica de quem faz um grande esforço por nada.

Também pode ter ingressado na discussão certo de que seus argumentos eram infalíveis, pois haviam sido testados diversas vezes, tanto na própria cabeça como pela boca de muitos amigos e, quando colocados à prova, perceberam que aquela força que eles aparentavam ter anteriormente simplesmente havia sumido.

A coisa é tão frustrante que muitos começam até mesmo a duvidar daquilo que defendiam, acreditando mesmo que não eram verdades tão evidentes como pareciam.

O que eles não percebem, porém, é que, em muitos casos, o que aconteceu é que não havia como ter sucesso nesse tipo debate, de maneira alguma. Isso porque, do outro lado, estava alguém que ingressou na discussão não para confrontar ideias, mas para vencer a batalha, usando de qualquer artifício que estivesse disponível para isso.

No entanto, isso apenas é possível quando o conteúdo do que defende não tem relação com alguma verdade imutável e pode ser alterado sem, com isso, causar qualquer tipo de espanto.

E as ideias relativistas são exatamente assim: têm o poder da transformação, não se apegam a nada fixo e podem, ao mesmo tempo, se posicionar em qualquer um dos pólos do debate.

Se o adversário, em uma discussão, tem o privilégio da plasticidade, enquanto você defende teses imutáveis, ele certamente levará vantagem. Se, em um momento, por exemplo, ele pode dizer que é a favor da democracia, e em outro defender uma tirania qualquer, em nome daquela mesma democracia, de que adianta tentar mostrar que a democracia é algo bom e deve ser defendida?

Por isso, o debate com um relativista jamais pode estar circunscrito unicamente à lógica, nem à coerência, nem à tentativa do convencimento em relação à verdade. Fazer isto é jogar o jogo dele, dando-lhe o que ele quer, que é espaço para impor a sua narrativa do momento.

Portanto, a principal tática em uma discussão com um relativista é a busca de sua humilhação. E isso só é possível expondo suas mentiras, mostrando que a despeito de sua retórica sofística, o que encontramos é uma infinidade de contradições intrínsecas em tudo o que ele expõe.

A posição dúbia dos modernistas ante o terrorismo

piano-e-terrorismoAtaques terroristas como o ocorrido em Paris, há alguns meses, ou como o de Orlando, agora, acontecem porque a sociedade laicista prefere fechar os olhos para a realidade da violência islâmica, tudo por causa de seu comprometimento com o multiculturalismo e com a oposição aos princípios judaico-cristãos.

É interessante como, quando começam as pessoas a criticar o Islã, por seus preceitos que autorizam os atos de violência, os primeiros a se manifestar contra uma eventual islamofobia não são religiosos, mas exatamente os laicistas, relativistas e modernistas em geral. Continuar lendo

Conversas de malucos

A loucura de uma época pode ser observada pela dificuldade que há nela para as pessoas se comunicarem. Como em um hospício, onde cada indivíduo, apesar de compartilhar o mesmo espaço físico com outros, vive em seu próprio mundo, não tendo suas palavras valor para ninguém mais além dele mesmo, pelo simples fato de representarem apenas as imagens existentes em sua cabeça demente, em nossa sociedade, que tem se assemelhado muito a um grande manicômio, as pessoas mal têm conseguido trocar ideias, debater opiniões ou mesmo exortar-se mutuamente. Cada um tem vivido em seu próprio mundo, com suas próprias fantasias e com suas falsas convicções.

Este é o nosso mundo: um aglomerado de pessoas que não compartilham mais, entre si, os mesmos princípios, o mesmo imaginário, sequer a mesma visão da realidade. Sobraram apenas a linguagem, em sua manifestação meramente funcional e os trabalhos práticos – coisas que existem em qualquer hospital para malucos.

Chegamos a esse ponto, sim, mas não foi por acaso. Isso é resultado de um relativismo plantado há séculos e que agora começa a dar seus últimos frutos. Assim, vivemos um completo desacordo relativo às coisas superiores, sendo que muitos sequer acreditam que existam coisas superiores. Há também uma discordância absoluta nas questões essenciais da vida. O que para uns é um mal aterrador, para outros pode significar o maior exemplo de nobreza e até bondade. Cada um, de fato, vive suas próprias verdades e como louco as professa como realidades universais.

Por isso, não podemos mais acreditar nos debates. As visões de mundo são tão diversas e discrepantes que iniciar uma discussão qualquer é mergulhar em um buraco negro de ideias e palavras que ainda que possuam aparência de realidade, não sabemos bem onde vai dar.

Ainda que exista uma pequena minoria de sãos, a maior parte do mundo está dividida em três tipos de pessoas: os imbecis, os lunáticos e os corrompidos. Os primeiros simplesmente vivem dentro de suas possibilidades limitadas. Tentar travar alguma conversa minimamente complexa com eles é perda de tempo. São estúpidos e permanecerão assim. Os segundos, apesar de possuirem alguma inteligência, têm a imaginação tão apartada da realidade comum que qualquer coisa que se diga a eles é logo transmutado para sua realidade paralela. Estes são os idiotas úteis que tiveram suas cabecinhas encharcadas com o lodo ideológico e, depois disso, não conseguem enxergar nada além do mundo de mentira da utopia. Já os últimos até entendem o mundo e estariam aptos para uma boa conversa, mas seus interesses corroeram tanto sua alma que nada mais lhes interessa senão tirar vantagem de tudo que se apresentar diante deles. Estes são os ditos intelectuais militantes, capacitados, sem dúvida, mas tão consumidos pelos seus desejos de poder que não há nada que se possa falar para eles sem que tentem tirar proveito de tudo a seu favor.

Viver neste mundo, portanto, é estar, a maior parte do tempo, em isolamento. O que nos restou é o silêncio involuntariamente promovido pelos nossos interlocutores. Na sociedade atual, já não é possível nem mesmo a repreensão, pois esta pressupõe que ambos, repreensor e repreeendido, compartilham os mesmos princípios. Mesmo Cristo, se viesse hoje à Terra, não teria mais como exortar os fariseus. Os de seu tempo, no mínimo, aceitavam os mesmos pressupostos que ele. Atualmente, suas broncas seriam apenas sua mera opinião.