O que minha filosofia não é

Minha filosofia não é cristã, mas influenciada pelo cristianismo. Não é cristã, mas balizada por ele. Seria cristã se partisse da religião cristã, o que não acontece.
 
Se o que eu penso partisse da doutrina, estaria eu fazendo pura teologia, o que eu não faço. Se minhas conclusões fossem a síntese do ensinamento cristão, não haveria filosofia alguma, só raciocínio doutrinário, o que também não faço.
 
Agora, se tenho o ensinamento cristão como um juiz ou um pedagogo (Clemente de Alexandria), então estou livre para exercer minha filosofia tranquilamente, sabendo que tenho o melhor orientador que o mundo jamais poderia me dar.
 
Não há nisso qualquer pretensão de autonomia, nem negação da fé. Apenas é uma questão de método que, no fim das contas, deságua no mesmo mar eterno.

Filófoso em tempo real

Virou moda no grupo semi-intelectual da internet brasileira considerar os alunos e admiradores do professor Olavo de Carvalho como que uma segunda classe de intelectuais. Isso porque começam a considerar o próprio professor um intelectual de segunda classe. Criticando-o no nível da aparência de seu discurso, têm-no por grosseiro, retrógrado e, como se isso fosse um xingamento, apenas por um religioso conservador.
 
O fato é que nessa arrogância juvenil – porque não se trata de nada mais que isso – esses meninos estão perdendo a oportunidade de acompanhar, em tempo real, um pensador de primeiríssima linha – algo que não houve igual, por causa das diferenças tecnológicas, na história do mundo. Existiram filósofos gigantescos na história, e o próprio Olavo refere-se a eles constantemente, mas nenhum deles pôde ser acompanhado no desenvolvimento de suas ideias, como se seus alunos morassem na casa desses pensadores. Nós, porém, temos isso, mas nem todos se dão conta.
 
Sempre que eu leio algo escrito pelo professor Olavo de Carvalho, vejo que, nele, tudo o que é expresso tem peso de realidade, de verdade, de concretude. Ao mesmo tempo que suas investigações mergulham em profundezas inacessíveis a boa parte dos que o lêem, elas nunca são tomadas por abstracionices, por palavras vazias. Seus pensamentos possuem a força da realidade e mostram-se comprometidos com a experiência verdadeira da vida.
 
Isso tudo fica mais evidente quando leio aqueles que tentam comentar o que o Olavo escreve. Façam esse teste! É incrível a disparidade no peso das ideias. Enquanto o que o professor diz parece remexer com a matéria viva, com o âmago dos problemas, geralmente seus comentadores apenas lançam slogans e lugares-comuns, que assemelham-se à névoa.
 
A verdade é que esse comprometimento com a experiência real, sem abrir mão de sua substância, aliado a sua vasta cultura, é que faz do professor Olavo de Carvalho um fenômeno vivo.
 
No entanto, os quase letrados virtuais insistem em apenas criticá-lo na base do concordo/discordo, gostei/não gostei, certo/errado. Com isso, perdem o mais importante nessa experiência, que é a possibilidade da observação imediata de uma mente privilegiada que está sempre expondo ideias que são fruto de suas diversas leituras e de sua capacidade acima da média de sintetizá-las.
 
De minha parte, reconhecendo que, por seu talento, experiência, dedicação e capacidade filosófica comprovada, o professor Olavo, quando escreve, está expondo algo que contém uma imensidão de outros conhecimentos subjacentes, antes de tentar fazer qualquer crítica, me pergunto: quais são os dados que ele rastreou para chegar a essa conclusão e quais meios intelectuais usou para tanto? Isso porque eu sei que nisto está o seu legado, nisto está o seu mais sério ensinamento e eu tenho certeza que é essa a lição que ele quer passar para seus alunos.
 
No entanto, uma parte dos leitores jamais vai entender isso, porque lhes falta humildade para reconhecer a distância que existe entre eles e um filósofo de verdade.

Equilíbrio pela intensificação dos extremos

A sabedoria milenar exaltou o equilíbrio como uma virtude. O meio-termo foi tido como o ideal ético. E o caminho para ele foi entendido, muitas vezes, como o simples abandono dos extremos. O equilíbrio deveria ser achado pela atenuação das paixões. Tanto que os estóicos chegaram a tentar suprimi-las por completo nessa busca, assim como alguns dos primeiros cristãos também.

Graficamente, considerando amor (A), ódio (O) e equilíbrio (E), seria assim:

O >>>>> E <<<<< A

Chesterton, porém, em seu livro Ortodoxia, interpretando o ensinamento cristão, nos oferece uma outra visão dessa realidade. Sem negar a virtude do equilíbrio, ele entende que este deve ser achado não pela atenuação dos extremos, mas, pelo contrário, por sua intensificação, conforme o seguinte gráfico:

O <<<<< E >>>>> A

É a tensão entre a força exercida pelos extremos que gera o equilíbrio.

O que o pensador inglês queria dizer era que o cristianismo ensina a amarmos intensamente e odiarmos intensamente e isso dará como resultado a vida perfeita, equilibrada e moral. O fato é que não há atenuação possível no amor pelo que deve ser amado, nem no ódio pelo que deve ser odiado. Tudo é intenso, total, verdadeiro.

Em tempos de relativismo, esta é uma mensagem desconcertante.

O cristianismo e os filósofos

Uma característica comum das filosofias que pulularam a partir, principalmente, do século XVII, é a tendência a querer explicar tudo partindo de um insight ou de uma conclusão, inferência ou percepção pessoais. Ressaltam um aspecto qualquer da realidade, que, sob um ponto de vista específico, uma perspectiva determinada, pode até ter algum sentido, e extrapolam-no exageradamente, às vezes até o infinito.

Por exemplo, observam que o mundo possui certa ordem e inevitabilidade e concluem por um determinismo absoluto; constatam que as percepções individuais variam e concluem que tudo é relativo; percebem que não podem confiar absolutamente no que veem e concluem que nada é confiável. Praticamente toda escola de pensamento originada a partir daquele período sofre desse viés de exagero. Universalizam o que é parcial e supervalorizam suas próprias descobertas.

Diferente do cristianismo, que, apesar de estender seus efeitos até o infinito, permite que muitas coisas permaneçam misteriosas. Enquanto as filosofias humanistas, sabendo uma parte, pretendem explicar tudo, o cristianismo, abrangendo tudo, explica apenas uma parte.

A diferença é que a verdade proclamada pelo cristianismo é oriunda de uma realidade fundamental, eterna e transcendente, enquanto as verdades dos filósofos são parciais e, geralmente, sem princípios além deles mesmos. Por isso, o cristianismo não precisa explicar tudo, porque pressupõe tudo, enquanto os filósofos tentam explicar tudo, porque o que alcançam, de fato, é muito pouco.

Usando a analogia de Chesterton, a verdade dita pelo cristianismo se torna evidente porque iluminada pelo sol da verdade fundamental, enquanto os filósofos, ao pretenderem ser independentes da luz primordial, acabam sendo apenas luz de lua.

A beleza e a alma corrompida

Algumas pessoas podem até dizer que a beleza é algo subjetivo, dependente do gosto e do desejo de cada indivíduo. Porém, não podem negar que há imagens que são tomadas como belas por todos. No mínimo, há alguma referência de beleza que permite que algo seja chamado de bonito e outro de feio. Ainda que se aceite que há graus de beleza, exatamente por isso deve-se aceitar também que existe uma Beleza transcendental, que serve como referência máxima de tudo o que pode ser chamado belo.

Em toda a história, as pessoas representaram o mal com o feio e o bem com o belo. Basta ver as pinturas que retratam seres demoníacos e as que retratam os angélicos. Jamais Cristo foi pintado como alguém feio, nem Belzebu com alguma beleza encantadora. Isso se dá menos por consciência da força simbólica da pintura do que pela expressão pictórica que tenta retratar o sentimento referente ao objeto pintado.

Há, portanto, nos homens, uma imanente relação com a beleza e com a feiúra que demonstra que é a beleza o que é agradável, bom, desejável e, por isso, o fim do ser. Sendo assim, pode-se dizer que a beleza é uma manifestação da própria divindade, enquanto a feiúra, seguindo a ideia agostiniana sobre o bem e o mal, seria a ausência ou, pelo menos, a diminuição dessa manifestação.

Diante disso, é evidente que a relação que as pessoas têm com manifestações de beleza e de feiúra possuem alguma influência sobre suas vidas. Obviamente, o que é bonito enleva, arrebata, encanta, acalma, pacifica. Por outro lado, o que é feio perturba, deprime, incomoda, repele. De qualquer maneira, ninguém é indiferente em relação a essas manifestações.

No entanto, essa relação não é consciente todo o tempo. Pelo contrário, na maioria das vezes ela se dá espontaneamente, exatamente por causa da imanência dessa percepção da transcedentalidade da Beleza, refletida, parcialmente, nas manifestações temporais.

Por isso, não há como negar que as imagens belas influenciam positivamente, elevando o homem a uma imago Dei. O que é belo transporta o homem para a percepção não apenas da existência de Deus, mas também de sua bondade e amor.

No entanto, quando o indivíduo não consegue mais identificar a diferença entre a beleza e a feiúra ou quando passa a denominar de belas coisas repugnantes, isso é sinal de que sua alma já está corrompida. Se a percepção natural remete à beleza como algo bom e a feiúra como algo mal, e, por outro lado, se a pessoa chegar a um estado de não conseguir mais diferenciar o belo e o feio, também não conseguirá diferenciar o bem e o mal, o bom e o ruim, o divino e o diabólico.

E a perda dessas referências se dá pelo hábito.

Uma pessoa acostumada a belas imagens, as terá como referência de beleza. Sendo assim, sua alma permanecerá inalterada em sua relação com o belo e o feio. Isso manterá seus referenciais imanentes vivos e, assim, será muito mais natural para ela compreender o que é o bem e o que é o mal, o certo e o errado. Para ela, aceitar que algumas coisas são invariavelmente ruins e devem ser evitadas será algo tão natural, que a tendência é que se torne uma pessoa realmente virtuosa.

Por outro lado, não basta ser exposto às imagens feias para, de alguma maneira, ter a alma corrompida. O problema ocorre quando essa exposição vem acompanhada da ideia de que essas mesmas imagens, que naturalmente são percebidas como feias, são belas ou, pelo menos, neutras. Isso faz com que, com o tempo, a pessoa exposta a essa constante, tenha sua percepção transformada, chegando ao ponto de não conseguir mais diferenciar o que é belo do que é feio ou perdendo a sensibilidade para identificá-los. Se não identifica mais a beleza, consequentemente terá dificuldades em identificar o certo e o errado.

Isso só não acontece plenamente, porque, diferente da beleza, o certo e o errado são passíveis de conceituação, dogmatização e identificação linguística. Assim, ainda que a pessoa tenha sofrido com a perda da percepção do belo, sua inteligência conhece os conceitos referentes ao que é certo e errado.

No entanto, isso causa um outro problema, que é o conflito entre a percepção e a inteligência. Enquanto a pessoa recebe a informação inteligível de que certas coisas são boas e outras são más, sua percepção não a ratifica, criando, no indivíduo, uma batalha de estímulos contraditórios.

Assim, a tendência é essa pessoa deixar-se conduzir pela percepção corrompida. Isso porque o que alimenta a alma, com o tempo, determina suas percepções. E a razão, quando não corroborada pela percepção, costuma sucumbir a ela.

Daí, quando olhamos para nossas cidades, com toda sua arquitetura utilitarista, sem preocupação estética, suas ruas sujas, seu crescimento desordenado e disforme; as favelas, com toda sua desordem e sujeira; quando somos expostos à exaltação do que é feio, feita por boa parte da mídia contemporânea; quando as próprias artes, querendo apenas chocar, apresentam um culto à feiúra constante; quando mesmo a moda, que sempre fora o bastião da beleza, começa a apresentar estilos que chocam e confundem, ao invés de enlevar, começamos a compreender porque estamos tão corrompidos.

Quando vemos nossas escolas públicas, com seu descaso estético, com suas paredes mal pintadas, seu chão engordurado, suas carteiras quebradas, seus muros pichados, seus uniformes sem graça, seus tetos com infiltração, seus jardins mal cuidados e suas lanchonetes sujas, sabemos que almas estamos forjando para o futuro.

O valor do tempo

Sob o impacto da película, ao olharmos para nossas vidas reais, reconhecemos a importância de não desperdiçarmos tempo

O tempo é um bem precioso, e quem ousaria negar isso? Mesmo imperceptível em seu desenrolar, tão lento que a noção de seu valor esvai-se, uma breve reflexão sobre o custo de seu desperdício é suficiente para perceber que não reverenciá-lo é um tipo de morte. Se a vida apenas pode ser glorificada em seus momentos que apresentam sentido eterno, o abandonar-se à letargia é destruir, a cada vez, a razão de existir.

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Minha perpétua dívida filosófica para com Olavo de Carvalho

Todos precisam de mestres, de pessoas que sejam seus conselheiros intelectuais, que ensinem o que eles mesmos aprenderam e, de alguma maneira, encurtem o caminho que seus alunos devam trilhar

Para quem não sabe, devo muito do meu conhecimento ao filósofo Olavo de Carvalho, hoje, também, com muito orgulho, meu professor. E por que esta homenagem? Simplesmente porque é necessário que minha consciência esteja limpa em relação às idéias que exponho neste espaço.

Conheci o professor em meados de 1998, quando adquiri, por mera curiosidade acerca do título, o livro “O Imbecil Coletivo”. Naquela época, eu, que já era um leitor voraz, porém conduzido pela maré cultural vigente, progressista e modernista, propagandeava as idéias básicas da comunidade esquerdista. Mesmo sem jamais ter sido um eleitor de partidos tipicamente de esquerda, repetia os mesmos chavões vociferados por eles e, principalmente, pelos seus asseclas da intelligentzia. Me sentia assim um jovem de vanguarda, sem preconceitos, um cristão liberal, solto das amarras da tradição. Estava bem acompanhado de pastores e líderes religiosos também modernos, que não se viam como parte do grupo reacionário e dogmático, como eles se referiam.

Voltando ao livro do professor Olavo, quando comecei a lê-lo, tomei o primeiro susto ao ver o encarte que acompanhava a obra. Um questionário engraçadíssimo sobre como o leitor poderia interpretar aquele trabalho. Nunca tinha visto ninguém se referir a si mesmo como um “mistifório reacionário”, por exemplo, já dando para os seus críticos o arsenal pronto para bombardeá-lo. Aquilo, para mim, além de absolutamente original me fez ficar muito curioso quanto ao conteúdo que vinha adiante.

Lendo a obra, não sei descrever bem minha impressão e reação. Na verdade, era uma mistura de estranheza, incompreensão, susto e atração. Mesmo sem compreender como alguns “ídolos” poderiam ser destruídos daquele jeito por um, ao menos para mim, desconhecido, não conseguia parar de ler e ser absorvido pela maneira absolutamente coerente e irretrucável como o autor expunha seu pensamento.

Ao fim da leitura, tive a certeza que eu não era mais o mesmo. Caíram os totens, ruíram as imagens de barro que estavam tão orgulhosamente postas em minha estante mental. Mesmo sem ter me tornado automaticamente o conservador retrógrado que sou hoje, o caminho já estava traçado.

Naquele momento, a estrada certa que eu seguia foi tomada por uma nuvem e suspendi minhas certezas políticas e filosóficas, revendo meus conceitos. Claro que isso durou algum tempo, afinal havia toda uma gama de novos autores, novas idéias que precisavam ser consultadas e analisadas para que eu pudesse fazer uma honesta comparação. E as comparações foram devidamente feitas. Lendo autores conservadores pude compreender o quão estava equivocada a visão progressista e como os ideais utópicos da esquerda eram falsos e maléficos. Mais ainda, dei-me conta do quanto fui enganado, usurpado em minha consciência, roubado em minha possibilidade de aprender as coisas como elas devidamente são. Percebi que durante toda a minha vida fui um receptáculo passivo de todo o lixo gramsciano, preenchido até a boca de palavras vazias que tinham o intuito único de agradar, mas não de demonstrar o que é real.

Voltando ao professor Olavo, minha homenagem é mais do que um agradecimento, é um reconhecimento de que ele foi a pessoa que me indicou, e até hoje me indica, o caminho das pedras para a compreensão de todo um cenário político e filosófico que se encerra diante de nós. E não tenho o mínimo receio de ser tachado como seu discípulo, ou como alguns pejorativamente chamam, de “olavete”. Isso é besteira. Todos precisam de mestres, de pessoas que sejam seus conselheiros intelectuais, que ensinem o que eles mesmos aprenderam e, de alguma maneira, encurtem o caminho que seus alunos devam trilhar.

Como o próprio Olavo, que não deixa dúvidas de que ele mesmo teve seus mestres, não me envergonho em nada em dizer que ele é o meu professor e dele absorvo o que há de mais profundo em matérias políticas e filosóficas.

Um dos motivos que me fez expor tudo isso é ver como tantos outras pessoas que passaram pelo ensinamentos do mestre, que absorveram dele quase tudo o que hoje proclamam aos quatro cantos, simplesmente agem como se tudo o que tivessem adquirido de conhecimento fosse fruto de suas próprias pesquisas e estudo. Uns têm a petulância ainda de dizer que o Olavo deu sua contribuição, mas já está superado; outros, talvez por um resquício de consciência, de vez em quando fazem uma citação quase que envergonhada de algo que o professor disse; e há outros, ainda, que simplesmente repetem aquilo que primeiramente foi dito por Olavo de Carvalho, omitindo completamente a fonte. O caso da ligação do PT com as FARC tem sido assim: articulistas, como o Reinaldo Azevedo, por exemplo, falam do Foro de São Paulo se referindo a ele como algo de notório conhecimento público, omitindo que, por muito tempo, Olavo de Carvalho fora uma voz quase isolada de denúncia daquele grupo.

Por essas e outras que achei devido colocar em meu próprio blog a indicação de que, tendo consciência de que o que tenho aprendido com Olavo de Carvalho é algo que durará por toda a minha vida, minha dívida filósofica com ele é perpétua. Perpétua porque após a morte não sei o que carregaremos daqui e o que nos será acrescentado. No entanto, nesta vida, minha dívida permanece.

Talvez alguns estejam enxergando nesse meu depoimento algum tipo de idolatria. Erram completamente os que entenderem assim. Minha admiração por Olavo não é pessoal, é intelectual – até porque não o conheço pessoalmente. Minha dívida é a gratidão por saber que sem a sua orientação ainda estaria repetindo os mesmos chavões dos senhores da academia. Se existe alguma coisa que falta neste mundo novo é isto: a gratidão. Não quero cair neste erro.